Filosofia no tempo da globalização: modernidade e pós-modernidade

by Francisco on sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Francisco Antônio de Andrade Filho

A Filosofia enfrenta, hoje, os desafios (Japiassu, 1997) da era da globalização "o de pensar-se nos dias de hoje" e "a chamada pós-modernidade", entre outros, de repensar o pensamento científico, não só enquanto atividade de pesquisa e atividade intelectual, mas enquanto atividade social estreitamente ligada, de modo complexo, às estruturas e às conjunturas sócio e econômico-políticas. É o tempo propício de conceber e de se praticar a filosofia: a habilidade de buscar um outro modo de ver e de pensar as realidades em suas múltiplas dimensões, entre as quais as novas teorias da linguagem provenientes das tecnologias da inteligência.

O que é modernidade? O que é pós-modernidade? Qual a relação entre si e dentro de um determinado processo histórico?

Suponho encontrar possibilidades de trabalhar estas questões frente aos desafios à Filosofia na pós-modernidade envolvida nas novas tecnologias dos dias de hoje. Pois, atividade filosófica "não consiste em justificar e legitimar o já passado", mas em elaborar constantemente uma crítica do pensamento sobre ele mesmo. O filósofo, hoje, em sua arte de praticar a filosofia integrada a áreas afins, não tem o direito de permanecer surdo. Produz suas pesquisas não só enquanto tais, mas enquanto "atividade social". Revela estudos e pesquisas. Sabe trabalhar projetos integrados de pesquisa. Tem habilidade de assumir radical e plenamente sua tarefa de "reflexibilidade" capaz de situar temporalmente suas "categorias", suas questões e suas práticas de ensino, pesquisa e extensão.

Sem excluir sua prática, penso poder tomar o capitalismo (ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de, 1994) como via de acesso à modernidade. Pois, de nenhuma criação histórica pode se dizer com mais propriedade que seja tipicamente moderna como do modo capitalista de reprodução da riqueza social e inversamente, nenhum conteúdo característico da vida moderna é tão essencial para defini-la como o capitalismo.

Esse caráter peculiar da modernidade configurada pelo capitalismo, de mudança radical revolucionária da história, abre caminho à "emancipação social" do homem. Realidade efetiva e ativa da riqueza moderna, o capitalismo, porém, desvela processo limitado e contraditório. Indispensável para a existência concreta da riqueza social moderna, a mediação capitalista, contudo, corrói. Dilui-se. Não se afirma como condição essencial e única de sua existência, enquanto explora a força do trabalho.

A atitude reflexiva da Filosofia serve como instrumento na arte de pensar e transformar a realidade social de nossos dias, principalmente se se trata de compreender a "moderna sociedade capitalista" (MARX, K. & ENGELS, F., 1982). Esse exercício do filosofar tem sua importância ao mostrar o real significado da modernidade, indo às raízes da questão para apreendê-la como movimento real, movimento contraditório, movimento dialético entre os diversos momentos do político, do jurídico, ideológico, científico e religioso que compõem a totalidade social, tendo como "última instância" a economia. Essa Filosofia tem muito a dizer do "capital global", desvendando o dinamismo, as contradições e as crises desse sistema, também numa perspectiva do proletariado, cujo trabalho constitui o ser humano, em sua sociabilidade, consciência e liberdade.

Assim, entendo a modernidade como um processo histórico. Como conhecer o sentido profundo desse tempo? Ela não é uma elaboração subjetiva, mas uma apreensão do movimento da própria realidade, da materialidade, das condições de existência do homem. É uma "atividade humana sensível... atividade humana como atividade objetiva" (MARX, K., 1982).

A modernidade não é uma idéia em si mesma, mas a idéia como produto humano, a forma pela qual os homens pensam e refletem as suas condições e relações sociais. Ela é essa realidade do mundo do homem, como realidade feita pelo homem. É a coisidade da "sociedade burguesa moderna" (MARX, K. & ENGELS, F., 1987).

É a partir desse conhecimento do processo histórico enquanto totalidade social, na "globalidade" e no conjunto das relações de produção como "base real" (MARX, K., 1982) que se apreendem dialeticamente as formas de consciência que dela se desprendem. Desse "ser social que determina a sua consciência" é que se entendem os processos sociais da globalidade capitalista, nos dias de hoje, e numa perspectiva do trabalho humano. E nasce uma nova questão que desafia à Filosofia: a pós-modernidade. A que idéias e práticas se refere algo tido como pós-moderno?

É um termo que parece significar tudo e nada (ROCHA, 1998). A pós-modernidade é um processo que, por estar ainda acontecendo, pode se desenvolver em várias direções. Ainda é cedo para se avaliar essa época atual.

De qualquer forma, a noção que está em jogo é a do novo, daquilo que está acontecendo no presente. É um mundo em ebulição, onde não há, então, nada definitivo. Tudo é passível de mudança, o que permite a afirmação: "Tudo o que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas" (MARX, K. & ENGELS, F., 1987).

A globalização, que hoje conhecemos como prática, é assim percebida. Nascido nas ruínas do Feudalismo, o Capitalismo ultrapassou os limites da Europa Ocidental, implantou-se nas mais diferentes regiões do mundo, como modo de produção dominante na maioria dos países, inclusive, com mais evidência na destruição de outros modos de produção enquanto estava nesse movimento de expansão pelo mundo. Na fala de Marx "A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda a parte, explorar em toda parte... deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países... As velhas indústrias nacionais foram destruídas diariamente... encontramos novas necessidades, que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas".

De fato, urge considerar que, nas últimas décadas, ocorreram grandes revoluções científicas, transformações aceleradas das práticas culturais e político-econômicas. De modo cada vez mais perfeito, embora limitado, o homem produz novas tecnologias. Com elas se relaciona, vive e morre. Fabrica instrumentos da inteligência na pesquisa de técnicas e de objetos técnicos. As biociências produzem as biotecnologias com o poder de continuar investigando a utilização da matéria com a industrialização e com o mercado da vida.

Mais do que nunca o pesquisador (ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de, 1999/2000), inclusive o filósofo, recorre às tecnologias da inteligência na área biomédica (BERNARD, 1998). Indaga e encontra respostas nessa "revolução terapêutica" que propiciou os grandes avanços farmacêuticos, ajudaram a debelar doenças mortais e deram maior garantia às cirurgias e transplantes.

Ainda mais. Com as novas biotecnologias, com essa outra "revolução biológica", de Engenharia Genética (OLIVEIRA, 1997), o pesquisador desenvolve técnicas de diagnóstico e técnicas de manipulação dos dados diagnosticados, e com o Projeto Genoma Humano, abre caminho para o domínio da reprodução biológica.

Os efeitos dessas transformações na produção do conhecimento genético (CLAGUE, 1999) acarretam suas implicações éticas. A clonagem animal e a possibilidade da clonagem humana, entre outras, constituem os avanços da ciência genética. Progressos científicos esses que, segundo a bioeticista Julie Clague, "afetam as atitudes em relação à vida, à morte e à saúde; afetam a disponibilidade concreta dos recursos biomédicos; e afetam também as práticas de pesquisa em muitas culturas onde a maioria da população jamais terá a oportunidade de compartilhar os benefícios da genética avançada".

Na verdade, essas descobertas do tempo atual suscitam mais fortemente suas questões éticas, sociais e econômicas. Bilhões de dólares são investidos pelos países desenvolvidos. Eles esperam daí lucros enormes em termos de aplicações comerciais para suas indústrias biotecnológicas. Exigem a transformação do conhecimento científico em produtos lançados no Mercado Mundial.

Assim, referindo-se às pesquisas genéticas desenvolvidas pelo Projeto Genoma Humano, a mesma Julie Clague cita o filósofo francês Jean François Lyotard, e percebe as relações entre ciência e economia nas sociedades capitalistas avançadas:



"As relações dos fornecedores e usuários de conhecimento com o conhecimento que fornecem e usam está agora tendendo, e sempre mais vai tender, a assumir a forma que já tornaram as relações dos produtores e consumidores de mercadorias com as mercadorias que produzem e consomem, ou seja, a forma de valor. O conhecimento é e será produzido para ser vendido, é e será consumido para ser valorizado em uma nova produção: em ambos os casos, a meta é o comércio".




Dessa reflexão, estenderemos o debate em torno de outros objetos novos que constituem verdadeiros desafios à filosofia. Daqui, partiremos para novos trabalhos em sua relação ético-política na era da informática e da comunicação social.



Bibliografia

* JAPIASSU, H. Um desafio à Filosofia: pensar-se nos dias de hoje. São Paulo: Letras & Letras, 1997.
* MARX, K. & ENGELS, F. Obras Escolhidas. Lisboa : Avante, 1982 (três volumes)
* __________________. O Manifesto Comunista de 1848. Edições Moraes, 1987
* ROCHA, Adriana Magalhães. Pós-Modernidade: Ruptura ou Revisão? São Paulo: Editora Cidade Nova, 1998.
* BERNARD, J. A. Bioética. Editora Ática, 1998.
* OLIVEIRA, Fátima. Bioética: uma face da cidadania. São Paulo: Moderna, 1997.
* CLAGUE, Julie. O conhecimento genético como uma mercadoria – Projeto Genoma Humano, Mercado e Consumidores, in Sowle-Cahill (org.), Ética e Engenharia Genética, Conscilium, 245 (2), Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 13 (157) a 24 (168).
* ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. O Problema da modernidade no Pensamento Político da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – 1952-1988. (Tese de Doutorado, ICHC, UNICAMP – texto digitado, 1994).
* ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. et. alii. O Recado da Pesquisa (http://www.orecado.org). Indagar, questionar, problematizar - do senso comum à consciência filosófica; Concepção de Liberdade em Montesquieu; Modernidade e suas contradições; O DNA e a justiça social; A Ética no Pensamento Político de Baruch de Espinosa; Bioética: medicina e sua relação com a antropologia filosófica; Informação ou Comunicação?; A questão paradigmática e a atualidade; Existe uma Ética do Serviço?; Bioética e sua relação com o Direito; Eutanásia: a vida produz a morte; Engenharia Genética - algumas implicações ético-filosóficas; Bioética - um novo desafio à Filosofia; O que é Bioética?; O Biofilho; Para Conhecer a Bioética - um novo paradigma da relação entre ciência e tecnologia; Relato de uma Experiência de Estudos e Pesquisas em Bioética; Relação entre Bioética e Psicologia: O Paradigma entre Caim e Abel

"Meu Filho é um Gato! Quem sabe não será um Ronaldinho?"

by Francisco on sábado, 15 de novembro de 2008

Alex Peña-Alfaro
Professor do Depto. de Psicologia/UNICAP

Hoje falaremos de futebol! Todo mundo sabe que o brasileiro é apaixonado pelo jogo que os ingleses inventaram e hoje é uma das expressões maiores da cultura brasileira. Houve tempos em que os intelectuais torciam o nariz pelo futebol, tentaram ignorá-lo, mas é inegável que o brasileiro incorporou este jogo à vida nacional e até utilizamos muitas frases que se originam do futebol: "tô na área", "passar a perna", "ficar no escanteio", "torcendo", "estar impedido", "cartão vermelho" e tantas outras frases. Assim, o futebol é importante dentro da cultura brasileira, como meio de socialização, atividade econômica, expressa um modo de ser e estar no mundo, o jogador brasileiro tem uma habilidade inata, uma capacidade orgânica para o jogo, já nasce jogador e pertence ao primeiro mundo do futebol, embora a organização esportiva dos clubes e das federações continue no terceiro mundo, haja visto os problemas de calendário de jogos, os cartolas que mudam as regras das competições, o desperdício de recursos, a falta de profissionalização em todas as áreas, desde a infantil até as seleções das várias categorias.

Neste momento, assistimos a uma terceira divisão paralisada, a problemas de falsificação de documentos de jogadores, corrupção, alteração das datas dos jogos e outros. Mas, hoje vamos falar sobre os gatos no futebol. Este é o nome dado aos jogadores que alteram sua documentação para poder competir com uma idade inferior à real. Isto é feito nas categorias inferiores, onde a diferença de idade é significativa e decisiva para as competições.

Tenho um filho de seis anos, é louco por futebol, está inscrito numa escolinha e agora está envolvido num torneio. Aí o treinador chamou os pais antes do primeiro jogo e alertou: "não se preocupem se algum pai ou mãe do outro time os provocar, xingar seus filhotes...isto acontece, não revidem, pois alguns, inclusive treinadores, visam apenas ganhar a qualquer custo."

Ficamos estarrecidos. Durante o jogo, o treinador do outro time ficou aos berros, gritando com seus próprios pupilos. Mesmo quando seu time estava ganhando o jogo, continuava furioso, inclusive dizendo palavrões junto as senhoras que assistiam ao jogo. Alguns pais falsificam certidões de nascimento para que seus filhotes levem vantagens e ganhem nos torneios e ficam furiosos quando os filhotes erram ou perdem um jogo, imaginem quando perdem o campeonato...pois é! Isto acontece a nível nacional no país do futebol. O espetáculo esportivo tornou-se um grande investimento milionário, grandes interesses comerciais entram em jogo, ou seja, o financeiro pressionará ainda mais o funcionamento. Em verdade, o futebol tem sido, não apenas no Brasil, uma forma de ascensão social, uma grande maioria de jogadores provém das camadas mais pobres. O futebol poderia ser uma grande escola da vida, promover valores sociais e culturais, educar os jovens para a vida, além de dar-lhes uma oportunidade econômica para conquistar algo, de outro modo difícil.

Infelizmente, o que vemos é o desperdício da rara habilidade do jogador brasileiro ir pelo ralo. O fenômeno do gato é exemplar, não é um caso isolado. A malandragem campeia em todos os âmbitos do futebol, muitos pais fantasiam e sonham com seu filho se transformar em um novo Ronaldinho, com direito a louras, carros e muita fama, mesmo que para isso devam recorrer a expedientes nem sempre corretos. O caso dos gatos preocupa porque são os pais, os dirigentes, os adultos que iniciam as crianças e jovens no campo da esperteza e do desrespeito ao o outro, pois a regra básica é ganhar, ganhar a qualquer custo...

Que pena...no futebol brasileiro o gato é o símbolo da esperteza, de passar o outro para trás, à espera que possamos definir uma ética de valores esportivos que sirva para promovê-lo e valorizá-lo, que o sonho de fazer do gato um Ronaldinho, e do pai dele o seu procurador, não norteie a aprendizagem do jovem.

* artigo publicado originalmente no ano de 1999, neste site.

Existe uma Ética do Serviço?

by Francisco on sábado, 25 de outubro de 2008

Alex Peña-Alfaro
Professor do Depto. de Psicologia/UNICAP

Gostaria de abordar o tema tão atual e pertinente e nunca desnecessário da ética, sob uma perspectiva muito especifica: a do serviço, o ato de servir alguém ou algo, e especialmente em relação à saúde pública onde talvez aparece a forma mais cruel de falta de serviço com uma população que mais necessita dele...neste mês de agosto tão fadado a malefícios e profecias de mau auguro temos assistido a verdadeiras catástrofes em termos do atendimento nos hospitais públicos.

Dois fatos ilustram bem isto: 1o, uma vistoria do sindicado dos médicos aos cinco maiores hospitais públicos reprovou todos.

2o, o ministro da saúde ficou surpreso e revoltado quando aqui chegou e constatou (depois de ter cortado verbas) que o atendimento é precário no hospital das clínicas do Recife...

Bom, não caberia aqui um aprofundamento das várias causas do problema, apenas uma reflexão sobre que tipo de ética rege o serviço na área de saúde pública, aqui contemplo desde o ministro ao enfermeiro, ressalvando as competências e responsabilidade de cada elo da corrente.

A pergunta é como chegamos a um ponto tão desumano numa área de tanto sofrimento onde se revela um descaso absurdo de se entender e muito maior de se explicar!

Por que funcionam tão mal os serviços de saúde pública?

A idéia é imaginar como funcionaria o sistema se fosse administrado por uma mulher, uma mãe, uma dona de casa...bem não se trata apenas de colocar apenas alguém do gênero feminino, seria simples se assim fosse...a questão é, se não seria diferente introduzir uma nova forma de serviço...isto é, os valores do feminino!!!

A forma de fazer política, de onde nascem as políticas de saúde pública, não passam de formas masculinas: o poder, a força, o prestigio; afinal, nossa civilização é milenarmente uma falocracia, inclusive com a participação das mulheres... os valores da nossa cultura são a guerra, o dinheiro, o domínio, a materialidade, vencer os outros, a competitividade, a exclusão, a identificação com o forte e poderoso. Ora, na área da saúde os valores que deveriam predominar são justamente os valores femininos: a compaixão, a solidariedade, a sensibilidade e acima de tudo: o cuidar do outro.

Este último é o valor da maternidade. Sem os cuidados da mãe, o indefeso bebê morre!!! Assim, o estado de doença é um estado de fragilidade, onde nossa precariedade física e existencial fica à mostra com clareza.

Mas esta ética do cuidar foi exposta 2000 anos atrás, por Cristo, quando falava e instruía seus discípulos. Já no fim da sua missão, lança um olhar sobre a cidade diz-lhes:

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas e tu não quisestes"! (Mt 23:37)

Realmente surpreende este pequeno texto, não apenas pela sua profunda densidade teológica, como pela sua atualidade dentro desta reflexão, podemos destacar várias questões. A primeira: "quantas vezes quis..." não se trata de uma atitude episódica, eleitoreira ou interesseira...mas de algo intrínseco à pessoa de Jesus, era da sua natureza esse interesse genuíno pelos outros; segunda: sua relação era amorosa queria abraçá-los como a filhinhos, cobri-los com seu imenso amor; terceira: "queria ajuntá-los como a galinha junta os seus pintinhos... "sua atitude era de mãe...como uma galinha...assim de simples; não entanto, a resposta à proposta de Jesus foi a recusa: "matastes os profetas e apedrejastes os que te são enviados..." a cultura falocrática não compreendeu sua atitude, e nós fazemos pior...não apedrejamos ninguém, apenas não atendemos os apelos dos que definham nos hospitais públicos e que no final da no mesmo...muitos morrem. Falta uma ética do cuidar, livre das "políticas" de saúde que, no final de contas, sempre visam outros objetivos imediatos que não os dos doentes, mas das estatísticas e das reeleições ou das futuras campanhas...falta compaixão... falta "mãe" que cuide. Para finalizar é bom lembrar que a administração das organizações hoje está descobrindo o jeito feminino de cuidar dos grupos humanos, seja na produção, na educação, nas artes, é uma tendência que cresce junto com a nossa crise Ética e de valores...por que não o feminino?

* artigo publicado originalmente no ano de 1999, neste site.

"Meu Pitbull ainda não mordeu ninguém"!

by Francisco on sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Alex Peña-Alfaro
Professor do Depto. de Psicologia/UNICAP

Temos notícias alarmantes de um aumento do número de pessoas mordidas por cachorros, o mais grave é que envolve crianças atacadas por cães de raça desenvolvidos por cruzamentos genéticos que favorecem as caraterísticas de força e ferocidade. São os pit-bull, filas e outras marcas em voga.

A questão é saber porque vivemos com o risco de acidentes envolvendo cachorros e pessoas indefesas, inclusive com ocorrência de mortes, as autoridades não tomam providencias eficazes, os donos de cachorro continuam a defender o direito particular de tê-los. E a cidadania (?) não sabe o que fazer...

Este é o cenário de um problema que cresce e ameaça vidas humanas ao qual se assiste passivamente. Porquê? Alguns dados podem ilustrar melhor. Só um hospital do Rio de Janeiro registrou no ano passado 1470 casos, com média de 6 pessoas mordidas por dia; a associação Cearense de criadores de pit-bull defendeu em março deste ano que não fosse proibida a criação e que apenas multa-se o dono quando alguém fosse mordido...O raciocínio é interessante...como é também o argumento de defesa contra os ladrões de residências e outros...

Está em jogo a discussão entre o que é a esfera do público e do privado, este problema do cachorro bravo que é meu e está na minha casa onde mando eu...pressupõe que ele está em lugar seguro. Isto é falso, pois muitos escapam dos portões e casas e atacam a primeira pessoa que encontram...depois não podemos ignorar os riscos e perigos e jogar com a vida das pessoas. Isto é um problema cultural o brasileiro só cuida depois...os donos confiam mais no seu cachorro...noutros países onde as leis escritas e as do convívio quotidiano impõem regras que as pessoas respeitam e os cachorros são educados para viver como membros da família e com os vizinhos como bem mostrou o antropólogo Roberto da Matta num artigo de jornal que falava do cachorro nos EUA ou na Europa. Mas por que essa moda de cachorro feroz?

Que Psicologia poderia explicar essa necessidade de desfilar com um bicho bravo desses? Podemos imaginar que as marcas falam dos seus donos, é o caso das grifes, importa muito mais do que o objeto, a marca...podemos perguntar o que representa um cão feroz? Uma defesa? Um status? Ou uma forma velada de ameaça aos outros? Arriscaria psicologizar o fato e dizer que pode ser uma identificação ...imaginem...com o bichano??? As descrições que se fazem desses bichos são escalofriantes, o pit-bull, por exemplo, tem uma força na mandíbula, quando prende a vitima, de várias toneladas; qual seria a utilidade de tanta ferocidade? Existem noticia de grupos de jovens que cultivam modos de vida próximo ao neo nazismo, com toda a apologia e culto a violência que não pode passar despercebida à sociedade pelos riscos que envolve.

Antigamente criava-se cachorro por identificação com caraterísticas do animal: lealdade, humor, docilidade etc. E agora?

O problema que fica para nós não é apenas discutir o direito de ter meu cachorro ou não...mas que responsabilidade tenho com os outros quando decido ter um cachorro ? até porque convenhamos há uns e outros, felizmente, e por isso também, existe enorme diversidade de raças para escolher. É injustificável que um fila tenha mordido pela segunda vez uma pessoa, a criança ficou com o rosto desfigurado, no espaço de seis meses e o dono está muito bem obrigado. Os donos de cachorros ferozes colocam os outros em risco; e não querem saber disso, pois como bem explicou um deles: "o meu pit-bull ainda não mordeu ninguém".

* artigo publicado originalmente no ano de 1999, neste site.

Mulher: virtudes e deslizes no Livro dos Provérbios de Salomão

by Francisco on sábado, 27 de setembro de 2008

Francisco Antônio de Andrade Filho



Uma mulher virtuosa é o diadema de seu marido e a mulher impudica é a cárie nos ossos (Prov.12.4)


Estudiosos afirmam que alguns provérbios são dos tempos de Salomão(970-931 ) antes da era cristã. Ele importou a sua corte muitos escribas egípcios e de outras nações. Mais conhecido como “filho de Davi, rei de Israel” (Prov.1,1), Salomão se tornou o patrono atributivo de toda literatura sapiencial de seu tempo.

A metodologia do livro dos provérbios é o mesmo dos Salmos de Davi e da Lei de Moisés. Este gênero sapiencial, independente de toda religião, visa buscar práticas de virtudes, caminhos de vencer na vida com habilidade, fugindo dos perigos que ferem o corpo e a alma. O referido livro salomônico serve:



para conhecer sabedoria e disciplina, penetrar as palavras profundas, adquirir esmerada instrução – justiça, eqüidade, direito - , dar perspicácia aos simples, sabedoria e prudência aos jovens, entender máximas, frases obscuras e os ditos dos sábios e seus enigmas. Ouça o sábio e aumente sua cultura, e o entendido obterá a arte de se dirigir (Prov.1, 2 a 5).


Agora, leio e releio apenas os capítulos 11 e 12 dos 31 desse livro. Para quem quiser, destaco dois versículos, um de cada um desses capítulos. E encontrei profundas e vitais mensagens sapienciais para os dias de hoje. Nelas você, mulher, encontrará – quem sabe -, elogios e críticas; virtudes e deslizes para sua vida. Não a julgo. Quem sou eu para tanto? Estudioso na releitura da antiga sabedoria, eu desejo contribuir para uma meditação que faz bem à mulher em busca dos caminhos da felicidade.

No capítulo 12, versículo 4, você descobrirá sua qualidade e seu deslize – se for sua, essa atitude -, meditando com Salomão, assim: Uma mulher virtuosa é o diadema de seu marido e a mulher impudica é a cárie nos ossos. Fiquei pensando, e registro. O homem sem maldade se afirma com aquela mulher pura, e se corrói com a inconseqüente. Mesmo assim, toca sua vida prá frente. Ele não será abalado nem com uma nem com outra. E, indago no diálogo com você, mulher “moderna”: o que pensa disso? Faça aqui seu comentário.

De outro, destaco o capítulo 11, versículo 22: Anel de ouro em focinho de porco, tal a mulher bela, desprovida de senso. Passei alguns minutos a refletir esse provérbio. E me lembrei dos costumes existenciais de hoje. Como sabiamente confirma Gasparetto: a mulher moderna acha que usar a cabeça, é ir ao cabeleireiro para fazer mechinha ou pintar o cabelo. E eu acrescento: também o homem e a mulher que pensa usar bem a inteligência, é se encher de piercings. Que pensa disso o leitor? Seriam essas pessoas, desprovidas de bom senso? Ou elas estariam acabando com suas vidas? Preconceitos? Afinal, para que serve a cabeça? Aguardo suas reflexões neste site.

Por alguns desses instantes de meditação, senti a alegria integral. Corpo e alma, nadando nas águas da sabedoria antiga daqueles ditos de Salomão. E louvo a Deus com Carlos Drummond de Andrade:



Deus me deu um amor no tempo de madureza,/Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maluco,/ e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

O que é Bioética?

by Francisco on quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Francisco Antônio de Andrade Filho

Na Encyclopedia of Bioethics, 2nd, ed. New York; MacMillan, 1995: XXI; Reich WT define Bioética como "o estudo sistemático das dimensões morais - incluindo visão moral, decisões, conduta e políticas - das ciências da vida e atenção à saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas em um cenário interdisciplinar."

O Recado da Pesquisa pensa ser um dos seus objetivos compreender a Bioética como um novo paradigma da relação entre ciência e tercnologia, no confronto com possibilidades e problemas de "ordem ontológica" (Von Zuben) e no modo de existir da pessoa humana e da própria tecitura social. Ela surge como uma ciência que reflete, discute e almeja atingir um consenso na defesa de valores individuais "ameaçados em decorrência do avanço da ciência e da tecnologia". Segundo Hubert Lepergneur, a bioética "é uma disciplina prática, cujo fim é conseguir o consenso máximo, em matéria de duvidosos desafios na área de saúde humana, para elaborar e implementar normas de ação". Ela, através de pesquisas integradas, análise e discussão de problemas de ordem ontológica, problemáticas e diálogos filosóficos sobre o conceito de pessoa, vai buscar soluções, traçar normas morais, para problemas éticos decorrentes de descobertas científicas. Ela servirá, de um novo paradigma, de modelo, para o funcionamento da atividade científica, com os valores almejados pela sociedade. É o homem que está em jogo em sua convivência social.

* artigo publicado originalmente no ano de 2000, neste site.

“Se”: uma condição de amor na primeira carta de João (Meditação)

by Francisco on domingo, 14 de setembro de 2008

Francisco Antônio de Andrade Filho


Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também seu irmão” (I Jô. 4,20-21).



Nesta primeira carta de João, registrada na Bíblia, Deus fala sobre o amor. Revela uma profunda espiritualidade, o mais nobre sentimento de que é capaz o ser humano. O amor não se reduz à mera simpatia romântica, e muito menos à atração sexual. Consiste, essencialmente, em querer o bem do outro, empenhando nesta vontade o próprio ser. É o dom do ser próprio.

A experiência mostra que o amor não é olhar um para o outro, mas olhar junto na mesma direção. Sabe compreender as fraquezas sem justificá-las; sabe valorizar as qualidades, sem as lisonjear.

Se os seguidores dos líderes espirituais oferecessem a Vítima Divina ao Pai no altar, lembrando que seus irmãos têm algumas queixas contra eles, porque tramaram contra sua felicidade – mas não tivessem o coração repleto de amor -, em nada ajudariam a ninguém.

Se você está triste porque alguém invejoso ameaça sua posição, lembre-se daquele que nunca teve a oportunidade na vida.

Se você se decepciona com a ingratidão e com o não-reconhecimento pelo que você fez, lembre-se daquele cujo nascimento foi uma decepção.

Se um sonho seu foi desfeito, lembre-se daquele que vive num pesadelo constante, enganando-se a si mesmo, com sua vida incoerente.

A amizade é paciente, benigna. Não é ciumenta nem invejosa. Não se exibe, não se inflama de orgulho, não procura o próprio interesse, e deseja o mesmo bem para o outro. Não se irrita, não se alegra com as covardias e as traições, mas se compraz na verdade. Tolera tudo. Crê. Tudo suporta. Nunca decepciona.

Se eu pudesse trazer a escritora Lya Luft para uma aula magna numa Universidade, eu lhe pediria repetir a beleza de sua obra “Secreta Mirada”, 3ª edição, São Paulo: Mandarim, 1997: 209, nesta passagem:

“Não se cultiva o amor. Pode-se cultivar o convívio, porque ele exige treinamento e paciência, e acomodamentos nem sempre fáceis. Exige, mais que tudo, que se inventem certos pequenos rituais até inconscientes, para que não sufoque a poeira desse cotidiano com sua inevitável banalidade”.