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Alex Peña-Alfaro
Professor do Depto. de Psicologia/UNICAP
Temos notícias alarmantes de um aumento do número de pessoas mordidas por cachorros, o mais grave é que envolve crianças atacadas por cães de raça desenvolvidos por cruzamentos genéticos que favorecem as caraterísticas de força e ferocidade. São os pit-bull, filas e outras marcas em voga.
A questão é saber porque vivemos com o risco de acidentes envolvendo cachorros e pessoas indefesas, inclusive com ocorrência de mortes, as autoridades não tomam providencias eficazes, os donos de cachorro continuam a defender o direito particular de tê-los. E a cidadania (?) não sabe o que fazer...
Este é o cenário de um problema que cresce e ameaça vidas humanas ao qual se assiste passivamente. Porquê? Alguns dados podem ilustrar melhor. Só um hospital do Rio de Janeiro registrou no ano passado 1470 casos, com média de 6 pessoas mordidas por dia; a associação Cearense de criadores de pit-bull defendeu em março deste ano que não fosse proibida a criação e que apenas multa-se o dono quando alguém fosse mordido...O raciocínio é interessante...como é também o argumento de defesa contra os ladrões de residências e outros...
Está em jogo a discussão entre o que é a esfera do público e do privado, este problema do cachorro bravo que é meu e está na minha casa onde mando eu...pressupõe que ele está em lugar seguro. Isto é falso, pois muitos escapam dos portões e casas e atacam a primeira pessoa que encontram...depois não podemos ignorar os riscos e perigos e jogar com a vida das pessoas. Isto é um problema cultural o brasileiro só cuida depois...os donos confiam mais no seu cachorro...noutros países onde as leis escritas e as do convívio quotidiano impõem regras que as pessoas respeitam e os cachorros são educados para viver como membros da família e com os vizinhos como bem mostrou o antropólogo Roberto da Matta num artigo de jornal que falava do cachorro nos EUA ou na Europa. Mas por que essa moda de cachorro feroz?
Que Psicologia poderia explicar essa necessidade de desfilar com um bicho bravo desses? Podemos imaginar que as marcas falam dos seus donos, é o caso das grifes, importa muito mais do que o objeto, a marca...podemos perguntar o que representa um cão feroz? Uma defesa? Um status? Ou uma forma velada de ameaça aos outros? Arriscaria psicologizar o fato e dizer que pode ser uma identificação ...imaginem...com o bichano??? As descrições que se fazem desses bichos são escalofriantes, o pit-bull, por exemplo, tem uma força na mandíbula, quando prende a vitima, de várias toneladas; qual seria a utilidade de tanta ferocidade? Existem noticia de grupos de jovens que cultivam modos de vida próximo ao neo nazismo, com toda a apologia e culto a violência que não pode passar despercebida à sociedade pelos riscos que envolve.
Antigamente criava-se cachorro por identificação com caraterísticas do animal: lealdade, humor, docilidade etc. E agora?
O problema que fica para nós não é apenas discutir o direito de ter meu cachorro ou não...mas que responsabilidade tenho com os outros quando decido ter um cachorro ? até porque convenhamos há uns e outros, felizmente, e por isso também, existe enorme diversidade de raças para escolher. É injustificável que um fila tenha mordido pela segunda vez uma pessoa, a criança ficou com o rosto desfigurado, no espaço de seis meses e o dono está muito bem obrigado. Os donos de cachorros ferozes colocam os outros em risco; e não querem saber disso, pois como bem explicou um deles: "o meu pit-bull ainda não mordeu ninguém".
* artigo publicado originalmente no ano de 1999, neste site.
- 8 comentários • Category: cachorro, cães de raça, Pitbull, Psicologia, tudo, violência
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