A Religião Como Instrumento de Educação em Maquiavel
by Francisco on terça-feira, 14 de abril de 2009
André Antoninho Führ
Para Maquiavel, a religião possui uma função muito importante para o bom funcionamento do Estado e para o bom cumprimento das leis e dos bons costumes. Pois os homens respeitam com mais fervor a um juramento na crença de serem punidos com mais potência e fúria pelos deuses dos que pelos homens: “E quem examinar as infinitas ações do povo de Roma em conjunto e de muitos dos romanos de per si verá que aqueles cidadãos temiam muito mais violar o juramento que as leis, porquanto estimavam mais o poder de Deus que o dos homens’’(Discursos I, 11).
Nesse sentido um Príncipe que souber se utilizar da religião poderá fazer com que seus cidadãos selem com mais respeito e com mais força pelo cumprimento as leis e dos bons costumes: ‘‘E quem considerar bem as histórias romanas, verá como a religião servia para comandar os exércitos e infundir ânimo na plebe, para manter os homens bons e fazer com que os reis se envergonhem’’(Discursos I,11). Percebe-se claramente o poder da religião e sua função educadora, pois além de fazer com que os cidadãos zelem com mais vigor pelo cumprimento das leis, esta serve como meio para estimular o ânimo o vigor e a coragem dos cidadãos.
A conservação de uma religião é tão importante para um Estado que em alguns casos a sua existência depende de sua manutenção e a sua ruína pode estar na falta dela como adverte Maquiavel:
E, assim como a observância do culto divino é razão da grandeza das repúblicas,também o seu desprezo é razão de sua ruína. Pois onde falta temor a Deus, é preciso que o reino arruíne-se ou que seja mantido pelo temor a um Príncipe que supra a falta de religião.’’ (Discursos I, 11).
Percebemos claramente a força que uma religião possui para manutenção do Estado e para a educação dos homens no cumprimento das leis e de suas obrigações com sua pátria. O Florentino cita ainda outro exemplo de como os legisladores se utilizavam da religião para que suas leis fossem mais facilmente aceitas como podemos ver na seguinte passagem:
E, de fato, nunca houve ordenador de leis extraordinárias, em povo nenhum, que não recorresse a Deus; porque de outra maneira elas não seriam aceitas: pois há muitas boas coisas que os homens prudentes conhecem, mas que não têm em si razões evidentes para poderem convencer os outros. Por isso, os homens sábios que querem desembaraçar-se dessa dificuldade, recorrem a Deus (Discursos I, 11).
Podemos ver nessa passagem o valor da religião na educação dos cidadãos, pois ela consegue fazer com que estes cumpram as leis não porque se sentem pressionados pelo Estado ou pelo Príncipe, mas sim porque acreditam que serão punidos pelos deuses se descumprirem as leis e por isso a respeitam o que faz com que seu caráter se molde de acordo com os ritos e costumes de sua religião.
Maquiavel cita ainda o exemplo de Numa e de como este soube se apoiar bem no uso da religião e as vantagens que conseguiu por ter agido assim: ‘‘Considerando tudo, portanto, concluo que a religião introduzida por Numa foi uma das principais razões da felicidade daquela cidade, pois ensejou boas ordenações; as boas ordenações trazem boa fortuna; e da boa fortuna nasceram os bons êxitos das empresas’’ (Discursos I,11).
Maquiavel afirma ainda que os príncipes que querem impedir a corrupção de seus Estados devem manter de modo forte e sem mudanças o culto à religião para que esta ação conserve o modo de proceder de seus súditos: ‘‘Os príncipes ou as repúblicas que queiram manter-se incorruptos devem, acima de tudo, manter incorruptas as cerimônias de sua religião e venerá-las sempre; porque não pode haver maior indicio de ruína de um estado do que o desprezo pelo culto divino’’ (Discursos I, 12).
Se analisarmos capítulo 13 do livro I Discursos cujo titulo é: ‘‘De como os romanos utilizaram a religião para reordenar a Cidade; realizar suas empresas e debelar os tumultos’’, podemos ver como o emprego da religião pode ser útil para o Príncipe de virtù como instrumento de educação de seus súditos, e como meio de comando do Estado. Maquiavel cita alguns exemplos nos quais o emprego da religião foi de suma importância para a manutenção do Estado. Entre eles, relata como o uso da religião de modo correto serviu para conquista de Veios e para obrigar a eleição de tribunos escolhidos pelos nobres: ‘‘E assim a religião, bem usada, serviu à expugnação daquela cidade e à restituição do tribunado à nobreza; pois, sem esse meio, dificilmente se teria chegado a qualquer dessas coisas’’ (Discursos I, 13). Percebemos que a religião é uma grande arma se utilizada de maneira correta pode transformar homens covardes em corajosos, soldados desacreditados em soldados de virtù, ações consideradas erradas em ações dignas de louvor.
Maquiavel se utiliza do exemplo dos Samnitas, para provar a força da religião, relatando que, mesmo depois de terem sido vencidos por inúmeras vezes pelos romanos; e sendo em menor número resolveram lutar contra estes movidos por um juramento e inflamados pelo medo de serem punidos pelos deuses caso, recuassem lutarar com todas as forças e com todo animo. ‘‘No entanto, percebe-se que não lhes pareceu possível outra saída nem outro remédio para reavivarem a esperança de recuperar a “virtù” perdida. O que demonstra plenamente, quanta confiança se pode ganhar usando bem a religião’’ (Discursos I, 15). ]Está claro que a religião serve como instrumento de educação em muitos casos com maior eficácia no controle dos cidadãos do que o uso das leis e dos bons costumes, além disso, é capaz, se utilizada de maneira correta, de promover inúmeros benefícios ao Estado.
Francisco Antônio de Andrade Filho
Dedico o presente diálogo filosófico, ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Discurso esse, extenso a todos os que apóiam e vibram com o maior estadista popular do Brasil. Ouvido e reconhecido por líderes políticos e seu povo, Lula se revela hábil em seus projetos de emancipação humana. Primazia do trabalho sobre o capital? Ou vice-verso, o capital sobre o trabalho?
A postura corajosa e vivida do “esse é o cara, adoro esse cara, o político mais popular da Terra” – elogio de Barack Obama no G-20 -, é resultado das sábias palavras de Lula: “Penso que é inexorável, vamos ter uma nova ordem econômica mundial. Porque todos se deram conta de que não é possível coexistir uma política de desenvolvimento produtiva, que precisa gerar empregos, com uma política financeira vivendo de especulação”
E sobre o capitalismo brasileiro, reafirma a importância de seus projetos políticos no bom combate às restrições das liberdades políticas e econômicas, nestes termos: “Descobri, junto a milhões de outros trabalhadores, que não bastava reivindicar melhores salários e condições de trabalho. Era fundamental lutar pela cidadania e por uma profunda reorganização econômica e social do Brasil”.
Pelo exposto nessa conversa escrita, percebo expressões de dois projetos políticos, impregnados de emancipação humana nos pronunciamentos e práticas do atual Presidente do Brasil. Nessa linha, indico aqui, alguns tópicos para um novo diálogo filosófico com os comentaristas desta página, a seguir.
I. Existem no interior do mundo moderno, dois projetos. O projeto de emancipação política mediada pela democracia, mas intrinsecamente limitado e parcial. De outro, o projeto de emancipação humano-social, regido pelo trabalho, que abre horizontes ilimitados.
II. Dois projetos humanos que expressam uma nova postura dos dias de hoje, relação entre o homem e as realidades existenciais; do ser histórico produzido pela sociedade. De tempos modernos da atividade humana; da consciência de sua capacidade de conhecer, preservar e transformar a natureza e a sociedade. De o homem mudar suas condições de vida e situar-se de modo diferente nas relações sociais.
III. Dentro do processo econômico e político da história humana, o capitalismo viu abertas diante de si, as portas para um desenvolvimento extraordinário das forças produtivas e para a configuração de uma ordem social à sua imagem e semelhança. Contudo, isto significou - como foi muito bem expresso pelo lema positivista “ordem e progresso” -, que o desenvolvimento da humanidade, daí para diante, se faria tendo por base a propriedade privada e, portanto, a continuidade da exploração do homem pelo homem.
IV. Enquanto isso, o pleno desenvolvimento do mundo moderno seria, todavia, a superação do mundo regido pelo capital e sua substituição por um mundo regido pelo trabalho, ou seja, pela associação de homens livres que trabalham para viver e não vivem para trabalhar. E com isso, o homem se realizará.
V. Isso está ainda para acontecer. O chamado primeiro mundo – hoje o G-8 – é conservador, reacionário. Representa a decadência – lógica do projeto do capitalismo selvagem -, a ganância do lucro em detrimento da riqueza social. Nesse sistema, ainda não se constituiu uma forma de sociabilidade, onde o desenvolvimento das forças produtivas não atendeu as necessidades de todos, nem o trabalho chegou a ser um processo social para o uso comum dos bens.
VI. A emancipação humano-social será possível. Isso acontecerá com a destinação originária de todos os bens e produtos do trabalho humano para a felicidade de todos. Será o tempo em que os homens construirão uma forma de sociabilidade, capaz de superar o capital, a propriedade não-social e o Estado.
E o homem conquistará a sua Humanidade.
Adeus, Vida: espiritualidade da sobrevivência pós-morte
by Francisco on terça-feira, 7 de abril de 2009
Francisco Antônio de Andrade Filho
(Em memória do Prof. Dr. Pinto Ferreira)
Compreender a vida do ser humano é compreender seu sentido. Perguntar pelo sentido último da vida é colocar o homem numa atitude de reflexão de sua grandeza. É filosofar a vida e a morte. É encontrar e simbolizar suas condições existenciais de vida, aqui e depois da morte. É fazer viver sua vida, ir em frente, agir, modificar, transformar, buscar objetivos concretos e espirituais do ser humano.
Nos dias de finado, os vivos povoam a Cidade dos Falecidos, onde os vivos se encontram com os defuntos. Almas vivas se abraçam com as imortais. Muitos chorando, não pelos defuntos, mas por si mesmos, os vivos. Derramam lágrimas não em cima dos defuntos, mas nas suas próprias faces.
E à luz da Filosofia, indagamos: por que reverenciamos os mortos? O filósofo, Dr. José Luiz Ames, comenta assim:
É precisamente aqui que entra a experiência da morte: na experiência do limite. Na morte nos deparamos com uma situação que nos atinge visceralmente, que toca a totalidade de nosso ser. Diante da morte, a vida se torna pergunta. Enquanto para a satisfação do desejo dependemos de nós próprios, a morte nos aponta para uma situação diante da qual somos impotentes. A morte atesta a impossibilidade do controle humano sobre a vida.
A sobrevivência depois da morte é um problema tão antigo quanto a própria história do homem. Foi uma preocupação constante do homem de todos os tempos.
Os mitólogos explicaram-na numa linguagem fantasiosa e que foge ao espírito científico do homem atual. Os teólogos, numa dimensão de fé, encontraram na Bíblia os mais sagrados e seguros argumentos a favor da imortalidade.
Seja como for, a verdade é que o ser vivo nasce para a vida despontando para a morte. Morte e vida de jovens e velhos representam duas faces da mesma realidade do ser-no-mundo. Só o homem tem consciência de ser-para-a-morte, desse inevitável destino do túmulo que lhe aguarda: sufocante, solitário, silencioso, escuro e úmido. Isso é uma tragédia para o homem que tem dentro de si mesmo uma ânsia incontida de se perpetuar no tempo, uma sede irresistível de não morrer. Enquanto isso, um convite à reflexão: sentir as palavras de William Blake:
Ver a eternidade num Grão de Areia
E o Céu numa Flor Agreste.
Segurar o Infinito na palma de sua mão
E a Eternidade em uma hora.
Mas, morte tem sentido para a vida. Não há vida sem morte; nem morte sem vida. E a eternidade existe. O infinito no finito-tempo. A vida continua depois da morte. Aqueles que sabem viver bem, se tornam imortais. Moisés, Lao-Tsé, Sócrates, Jesus, Tomás de Aquino, Giordano Bruno, Gandhi, Martin Luther King, Vladimir Herzog, Chico Mendes, dentre outros – Pinto Ferreira -, brancos, amarelos, pretos, pardos, mulatos, índios... Todos vivem. Todos morrem e vivem.
A morte é um acontecimento necessário para dar ao EU pessoal possibilidade de um pleno desabrochar. A semente que, para poder germinar a sua vida e suas potencialidades.
Francisco Antônio de Andrade Filho
Ultimamente, a Igreja Católica voltou seus pensamentos para os mistérios do Salvador. É a Semana Santa, iniciada neste Domingo de Ramos. Nela, celebram-se de modo especial, seus três dias. Indiferentemente de denominação religiosa, todos os seguidores de Jesus, filho do casal José e Maria. A escrita sagrada, antiga e nova, a revelar ser Jesus, homem de uma mensagem que nos liberta e nos enche de vida, tal que repercutiu no mundo inteiro, ser Filho de Deus- Homem tão bom, honesto e leal. E fiz uma leitura atenta da Bíblia, dela captando a verdade, anunciada aos amigos da blogosfera aqui; entre outros.
É Quinta-Feira. Vejo 1 Cor. 11, 23 – 26. Refleti e senti a vida. E Deus é Vida. Jesus se fez servidor de todos dando a vida pelos amigos. Dele aprendemos que é próprio do amor eliminar distâncias, ser verdadeiro e leal., humilde e transformador. Anunciar a verdade e combater a mentira da comunicação, da fala em diálogo com o outro. Não tolera a hipocrisia, defende a verdade. E recebemos a mensagem: não se vive sem Deus, não se vence sem amar.
É Sexta-Feira. Agora é Isaias, 52, 13-53 que anuncia o mistério do sofrimento. Por que aconteceu a morte de Jesus? Para ser amor onde há ódio; ser perdão onde há ofensa; ser amizade onde há desencontro; ser verdade onde há erro; ser alívio onde há dor; ser coerência onde há incoerência; ser pai onde há filhos. Ser sinal. Ser presença.
É Sábado. Desta vez, medito a epístola de Paulo aos Romanos: 6:3-11. São páginas de lições que perduram, mesmo reinterpretadas ao longo dos tempos. São mensagens isentas de sectarismo religioso e político, entre outras dimensões humanas. Pois, são palavras paulinas que, embora limitadas, expressam a mensagem divina. Percebi que o Povo de Deus – se caracteriza pela coragem de viver; pela vontade de servir; pelo desejo de reconhecimento, pela alegria da vida de Jesus que nos trouxe tempos felizes e coragem para o bom combate da fé.
E, neste Sábado, de madrugada, Jesus ressuscitou. Ele está vivo. Não está entre os mortos, mas entre os que vivem – vivificando os que o procuram. E me alegrei com isso. O poder de Deus que libertou Jesus da morte, faz brotar em nós uma vida nova eliminando o choro e a dor; o sofrimento e a morte .E as forças do bem e da vida triunfarão para a alegria de todos. Homens e mulheres; terra, ar, água e fogo terão uma nova vida. Todo o Universo canta: a escuridão produzida pelos homens não existirá mais. E veio a luz. E o Reino de Deus se instalou. Ditadura, nunca mais. Perversidade, longe dos filhos de Deus. Demônios, bem distantes.
E agora, amigos e amigas. Onde está Jesus? Vivo ou morto? Onde buscá-lo. Nos crucifixos bonitos, ou nos cristãos feios; no respeito a todos os iguais a Jesus, ou nos preconceitos de raça, cultura e religião? Estaria Ele vivo nos lábios da falsidade e covardia; da mentira e do ódio? Procure-o. Irá encontrá-lo crucificado e triste no irmão que sofre. Vê-lo-á feliz no irmão que irradia alegria. Lá vai Ele...lá vai...Jesus Cristo ressuscitado...Raimundo, José, Nathanael, Daniel; Josélia, Telma, Tânia; todos os homens, mulheres e animais – toda a Natureza -, ressuscitados com Jesus, Maomé, Moisés, Buda, Dalai – Lama, Luther King.
E a Humanidade se emancipou: O homem livre da exploração dos detentores do capitalismo selvagem e da imprensa perversa e golpista A Natureza preservada da ambição do homem em sua ganância de lucro e destruindo a Terra, Água, Ar e Fogo.
Espaço Político da CNBB na Ditadura Militar [parte II]
by Francisco on quarta-feira, 1 de abril de 2009
Francisco Antônio de Andrade Filho
Na reflexão anterior, meditamos a postura de adesão da CNBB ao golpe militar de 1964. Cardeais, Arcebispos, Bispos e Padres concelebraram a “Missa de Ação de Graças” pela vitória da revolução armada sem derramamento de sangue. O mesmo sacrifício foi executado por milhares de capelães militares nos templos sagrados dos quartéis em todo país.
Esse episódio traduz o papel político, social e econômico, que aquela organização católica tem na sociedade brasileira. Percebe-se nele, o caráter dialético do processo. As metamorfoses da Igreja Católica no Brasil têm uma dimensão mais global. O processo político, por si só, não as explicam, nem apenas seus interesses institucionais. A necessidade de auto-reprodução, aliada às novas condições econômicas, políticas e sociais, produz apreensão dessas tensões contraditórias no Brasil.
A CNBB define, em termos de doutrina social da Igreja, as características e condições, o sentido e a importância da sua presença e atuação na “vida política ditatorial” do golpe de 64. É de seu desejo “ler o político a partir do Evangelho e não o contrário”. Interessa a esta instituição eclesiástica, aquela política em seu sentido mais amplo que visa o bem comum, que promove os valores fundamentais de toda comunidade. É o que ela registra em seus documentos oficiais:
“Conjunto de ações pelas quais os homens buscam uma forma de convivência entre indivíduos, grupos, nações, que ofereça condições para a realização do bem comum... valores éticos da liberdade, da participação”.
Esse pensamento político da Igreja Católica, herdado de sua tradição, entre em conflito ao afirmar que sua tarefa “não é de ordem política, econômica ou social... é de ordem religiosa, evangelizadora e de natureza eminentemente pastoral”. Mas, ela própria se contradiz, quando pensa e age assim “de nenhum modo a conduz a se omitir a respeito de problemas sócio-políticos do país (que) sempre apresentam uma relevante dimensão ética das decisões políticas”.
Deste modo, a CNBB vive nessas tensões. De um lado, não interessa à Igreja intrometer-se em partidos políticos. Assume uma missão crítica, de denúncia à violência política daqueles que contrariam os projetos divinos. No entanto, de novo, cai em contradição, quando sustenta em participar da república Militar. Sente como seu dever e direito estar presente neste campo da realidade ditatorial do golpe militar. Pois, os Bispos Católicos do Brasil argumentam nestes termos:
“A fé cristã não despreza a atividade política; [...] pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima... O cristianismo deve evangelizar a totalidade da existência humana, inclusive a dimensão política”.
Estudos e pesquisas descobrem as contradições da CNBB na chamada Revolução Militar de 31 de Março de 1964. O pensamento político dessa organização é produto das mesmas contradições do projeto de desenvolvimento capitalista dependente, do mesmo trabalho econômico de industrialização associado ao capital estrangeiro. Suas idéias, produzidas nesse tempo, não foram reveladas por Deus, nem milagres de Nossa Senhora Aparecida. Foram determinadas pela totalidade da sociedade brasileira, fruto do trabalho humano. Nesse passado de 45 anos, s transformação capitalista teve lugar graças ao acordo entre a classe burguesa – nesta incluindo a Igreja e a exclusão das forças populares -, e de intervenção econômica do Estado.
Veja também: Missa de Ação de Graças Pelo Golpe Militar de 1964 [parte I]
Missa de Ação de Graças Pelo Golpe Militar de 1964 [parte I]
by Francisco on segunda-feira, 30 de março de 2009
Francisco Antônio de Andrade Filho
Foi em 31 de Março de 1964. Nesse tempo - pensava a Igreja -, era preciso desmantelar o movimento comunista, implantado no meio estudantil. É contra o fantasma do Comunismo que a CNBB – essa “Voz do Pastor” em rede radiofônica e nos canais de televisão-, convocava o Brasil e outros países da América Latina a empunharem a bandeira da repressão.
E ela divulga sua ação: ”Os Países fortes têm a obrigação de impedir no mundo {...} a vitória do comunismo que se impõe e sustenta pela violência e pela força brutal das armas”. Nessa situação, é preciso desmantelar o movimento. Parar a História. Estancar o sangue novo. Expulsar Aldo Arantes da JUC, líder da UNE. Isolar a vítima expiatória para não manter contato com os membros sadios da comunidade cristã. Os santos não poderiam ser contaminados pelos pagãos e ateus.
Em defesa de sua infalibilidade doutrinário-social desliga, assim, os juscistas da política e, em conluio com a repressão militar de 1964, os reduz ao silêncio da clandestinidade, seres humanos sem vez e voz. Coxos, surdos e mudos. Corpos e mentes, mutilados e despedaçados, são vestígios da contradição da Igreja que proclama a liberdade como valor absoluto e, no entanto, o restringe para o outro.
Temendo a desintegração e a desordem social da “marcha acelerada do comunismo para a conquista do poder”, a Igreja apoiou o poder coercitivo das Forças Armadas, subordinando e entregando aos seus agentes, aos futuros torturadores da Segurança Nacional, os movimentos católicos da ação política.
O poder sacro falou e escreveu a repressão, a tortura, prisões, espancamentos e assassinatos de seus líderes políticos formados e treinados nos Círculos de Estudo da Igreja. Pois, no Sacrifício da Missa, rezada em ação de graças pelo golpe, proclamava o elogio à Revolução Militar e exultava de alegria com a derrota dos comunistas, nestes termos:
“A rendermos graças a Deus, que atendeu as orações de milhões de brasileiros e nos livrou do perigo comunista, agradecemos aos Militares que se levantaram, em nome dos supremos interesses da Nação”.
Mascarada pelo anticomunismo, a instituição eclesiástica realizava seu desejo de fazer a ordem político-religiosa aparecer à sociedade como um benefício inestimável do Cristianismo em oposição ao Marxismo. Para ela, essa nova ordem, desencadeada pela Ditadura Militar e desejada por Deus – do deus católico -, constitui o ponto culminante de todo processo real da “violência sagrada” que, para a religião, funda a unidade social contra a vítima expiatória.
Por isso, nesse mesmo ato de respeito ao golpe autoritário, os bispos e padres durante aquela missa, ressaltavam, com festas, “uma sensação de alívio e de esperança... o mesmo sentimento de gratidão a Deus, pelo êxito incruento de uma revolução armada”. Era a bênção de Javé ao poder militar, escondidos atrás de suas fardas, em benefício do poder e da herança da Igreja, em ter apaziguado a violência substituída pelo vinho, transformado em sangue na celebração da Missa, instrumentos de prevenção na luta contra a tirania dos comunistas.
Francisco Antônio de Andrade Filho
Há dois meses, li o livro “Anjos e Demônios”, de Dan Brown, da Ed. Sextante, 2004. Percebi nesta obra, o poder político da Igreja Católica – mas também sua fragilidade e corrupção -, em conflito com sociedades antigas de seu tempo e modernos centros de pesquisas. Ele trata de questões que passam pela cabeça de todos: a existência de Deus e Ciência, a possibilidade de se ter fé no Universo - Deus ou Natureza -, e do alinhamento entre o científico e o espiritual. Transcrevo, com aspas, um dos diálogos, a seguir
Padre Leonardo fala com sua filha Vitória (p.60). “Vou me mudar para a Suíça [...] estudar Física na Universidade de Genebra. Física? – exclamou Vitória, - Pensei que você amasse Deus! Eu amo e muito. Por isso é que quero estudar suas regras divinas. As leis da Física são a tela que Deus estendeu para pintar sua obra – prima”.
E no laboratório de seu pai, Vitória conversa com Kohler (p.60/65): “por onde começar. [...] disse ela imperturbável, com seu sotaque. “Pelo começo – pediu Kohler. – Conte-nos a experiência de seu pai. Alinhar a ciência com a religião sempre foi o sonho da vida de meu pai – disse Vitória – Ele esperava provar um dia que ciência e religião são dois campos totalmente compatíveis, duas abordagens diferentes para se encontrar a mesma verdade [...]. A ciência e a religião não estão em desacordo. É que a ciência ainda é muito jovem para compreender”.
Reagindo, Kohler contradiz o pensamento de Vitória (p.69), assim: “O avanço científico traz riscos [...]. Sempre trouxe. Programas espaciais, pesquisa genética, medicina, todos cometem erros. A ciência precisa sobreviver a seus próprios enganos. Para o bem de todos”.
O camerlengo, porta-voz do Papa no Vaticano (p.429), lembrando sua doutrina, verbera, assim: “A ciência e a religião não andam juntas. Não buscamos o mesmo Deus [...] Quem é seu Deus? Um Deus de prótons, massa e carga de partículas? Como seu Deus inspira seus fiéis? Como é que seu Deus chega ao coração do homem para lembrar-lhe que ele é explicável por um poder maior? [...] Isso não glorifica Deus, isso desmerece Deus”.
E hoje, ao reler os tópicos acima expostos, lembrei-me da conduta de líderes da Igreja Católica, Romana, com seus dogmas medievais, do Direito Canônico – eis sua derrota -, violando o Direito Civil de outros países. Foi assim que a violência eclesiástica, do arcebispo José Cardoso Sobrinho, contra a mãe de uma menina de nove anos, grávida de gêmeos; e contra os profissionais de saúde. Com aplicação de normas ineficazes contra o aborto e a ciência, foram simbolicamente e massacrados por esse herdeiro do poder medieval. E todos que reagiram, perguntavam: “E por que ele absolve o pedófilo-padrasto estuprador da mesma criança, grávida de gêmeos?”
Assim, também, Bento XVI - em suas recentes viagens e no trono sagrado de seu Palácio dentro do Vaticano – condena o uso de camisinha como forma de prevenção da contaminação pelo HIV, e prega abstinência sexual. É a religião católica contra a ciência? Leia mais sobre a temática em “Cobertos de Teia de Aranha”, por Jussara Seixas.
É possível alinhar a ciência com a religião? Uni-las? Religião e ciência são inseparáveis, mas distintas da dimensão espiritual na vida humana. É polêmico afirmar a possibilidade de se vê uma ao lado da outra. Os caminhos da espiritualidade são trilhados pelo respeito mútuo, tolerância, convivência e transformação interior, vivificada na religião ou na ciência.
Neste momento de reflexão, alerto a Igreja Católica, entre outras instituições eclesiásticas, a se converte, ser mais humildes diante de Deus e de seus filhos. Respeite o desafio das ciências, inclusive, no caso, desça de seus tronos e estude as Ciências da Saúde.
De minha parte, não tenho medo de excomunhão É o livre exercício do juízo crítico em questões religiosas e político-institucionais. Por causa delas e com elas, ter valorizado a tal ponto o ser humano, Espinosa encontrou na sua frente a mais fantástica campanha do silêncio, perseguição e censura proveniente daquelas mesmas instituições religiosas e políticas, católicas e protestantes. Poderes sacros, mal da religião. Poderes sem ética, destruidores da espiritualidade humana.
Nesta linha, tomo a liberdade de levantar algumas questões críticas para uma releitura de Espinosa nos dias de hoje, a seguir.
Seria a espiritualidade um refúgio confessional para se manterem discursos e sermões fanáticos e mercantilistas que fogem da ciência na construção das normas éticas?
Não estaria a espiritualidade, cooptada pelas religiões institucionalizadas em vista de impor a sociedade suas conotações teocráticas? Poderes, com ou sem ética?