Semíramis Alencar
Brincar é uma arte. É a arte que a criança desenvolve com sua imaginação. As pessoas se transformam quando criam.
Sabendo que a criança não está preparada para lidar com a frustração, se desanimando rapidamente quando percebem uma dificuldade de aprendizagem, o brinquedo poderá ser de grande valia para a estimulação do processo de aprendizagem, se usado como apoio pedagógico. No entanto, é imprescindível o apoio e a participação ativa de pais e professores que contribuirão para a melhora da criança.
A família deve participar da vida escolar da criança bem como do espaço físico da escola, onde eles se integrarão com professores e outros pais para melhor debater acerca das possibilidades de estímulos para seus filhos. O professor, sempre que observar qualquer dificuldade deverá sempre observar e questionar o comportamento da criança.
Cabe ao professor ainda ter um objetivo definido para estimular a atividade com brinquedos. O brinquedo obriga a criança a pensar, o brincar pedagógico exige atenção e orientação do professor. Quanto mais a criança brincar, mais abrangente será sua aquisição de linguagens e conceitos.
Trabalhar a carência afetiva é importante para o crescimento da criança. Com os brinquedos podemos fazer com que ela apreenda os conhecimentos, de forma socializada e estando feliz, uma vez que ela está fazendo o que mais gosta.
O brincar é uma atividade vital para a criança, é a maneira pela qual ela descobre seu mundo, levanta hipóteses, pensa e reflete sobre ele em consonância com a vida dos semelhantes. Toda criança tem no brinquedo a realidade que ela não pode viver. O brinquedo traduz para a vida real a própria realidade infantil.
Por exemplo, Quando a criança brinca de casinha ela está projetando a vida em família de várias maneiras: como ela vê sua relação com a família; como ela gostaria que fosse sua relação com a família; situações que ela já presenciou; situações que ela criou à partir de leituras ou desenhos animados.
Enfim, seja o que a criança esteja brincando, ela sempre levantará hipóteses, refletirá sobre os comportamentos e as ações dos adultos nos quais ela estará se espelhando para a formação de sua personalidade e seu processo de socialização.
Semíramis Alencar
Para que serve a escola?
Basicamente, a escola serve para:
• Ensinar conteúdos e habilidades necessárias à participação do indivíduo na sociedade;
• Através de seu trabalho específico, a escola deve levar o aluno a compreender a sua própria realidade, situar-se nela, interpretá-la e contribuir para sua transformação.
• A escola é fundamental para a formação da cidadania. Por isso, nenhuma criança pode ficar excluída de seus benefícios.
• Todas as crianças têm o direito a uma sólida formação escolar.Todas têm o direito de sonhar e seguir seus sonhos, realizando seus projetos individuais e coletivos.
• Isto acontece quando pensamos em:
“Criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo de riscos, por isso que se recusa o imobilismo.
A escola que se pensa, em que se atua, em que se cria, em que se fala, em que se ama, se advinha.
A escola que apaixonadamente diz “sim” a vida”.
Paulo Freire, educador pernambucano.
Como os processo de ensino-aprendizagem são muitos e variados, cada professor tem uma forma única de demonstrar e aplicá-los, uma vez que possuem uma idéia geral de como se dá o processo de aprendizagem dos alunos e assim como ele deve ensinar. Essas idéias orientam a forma de atuar em sala de aula.
Cada aluno é único e tem seu próprio ritmo de aprendizagem baseado nas suas experiências anteriores e externas à escola. A escola é o lugar de encontro dessas vivências, de alunos e professores e o debate acerca de temas de interesse comum à todos.
Preservar interesses, entender necessidades e tratar cada aluno de forma individualizada são aspectos centrais num ensino bem sucedido. A aprendizagem é o resultado de processos sociais e pessoais.
José Luiz Ames
Todos os candidatos cobram dos eleitores um “voto consciente”. Poucos, porém, se preocupam em detalhar esta exigência no sentido de mostrar o que entendem por isso. O que é um voto consciente? Em que condições é ele possível?
Trata-se, sem dúvida, de um problema complexo cuja solução excede em muito o espaço deste artigo. Penso, no entanto, poder contribuir para o seu esclarecimento e é com esse objetivo que faço as considerações seguintes. Realizar um ato consciente pressupõe a existência de três elementos: a) pleno conhecimento do seu conteúdo; b) liberdade para efetivá-lo; c) vontade deliberada de praticá-lo. No presente caso, a ação a ser levada a efeito é o voto. Cabe-nos, então, examinar se estes aspectos têm como se fazer presentes no exercício do voto.
Inicialmente, quanto ao conteúdo do voto: o que eu preciso saber para votar de forma consciente? Em primeiro lugar, conhecer as propostas do candidato. Quanto a isso é preciso examinar, ao menos, o seguinte: as propostas são viáveis ou são promessas vazias? A quantidade das propostas é compatível com o volume de recursos e o tempo disponível? Respondem à ordem das prioridades e urgências de interesse da maioria ou são em benefício de grupos minoritários? O comportamento mais comum da parte dos candidatos é impressionar os eleitores com uma relação de propostas sem mostrar como é possível realizá-las. São, na verdade, promessas vazias. Em segundo lugar, a própria pessoa do candidato. Quais as ações desenvolvidas por ele o credenciam para o exercício do cargo pleiteado? É somente uma pessoa de prestígio ou já demonstrou possuir capacidade administrativa para o exercício do cargo pretendido? Quais os valores que defende? É alguém de convicções firmes ou muda ao sabor das conveniências? Pode comprovar sua honestidade e integridade ou seus negócios estão repletos de sombras?
Quanto à liberdade: um ato consciente requer a ausência de quaisquer constrangimentos para sua efetivação. Podem os eleitores decidir sem medo de retaliação futura? Quando há um candidato apoiado pela situação, cabe questionar: os servidores públicos podem externar sua opinião, quando contrária ao candidato situacionista, sem receios sobre sua situação futura? Afeta também a liberdade a oferta de bens ou serviços em troca do voto. O candidato que compra o voto constrange a liberdade do eleitor. A liberdade é comprometida ainda pela manipulação das informações durante a campanha. Isso pode acontecer através de diferentes modos: por pesquisas de intenção de voto “encomendadas” para iludir os eleitores e induzi-los à determinada opção; pelo emprego de técnicas de propaganda para realçar os aspectos mais atraentes e esconder os negativos; pela intimidação dos adversários.
Por fim, o voto consciente exige que o eleitor tenha a vontade deliberada de praticá-lo. Votamos porque estamos convencidos da importância do ato ou porque a lei nos obriga? Não parece ser possível votar de forma consciente quando se é constrangido a isso, ainda que o seja pela força da lei.
As considerações acima revelam as limitações da campanha política no sentido de levar o eleitor a um voto consciente. Ainda que ele acompanhe a propaganda eleitoral no rádio e na TV, participe dos debates, leia os materiais de divulgação, dificilmente estará suficientemente consciente de todos os aspectos envolvidos no voto. É bom que se diga que o problema não está na dificuldade de compreensão do eleitor, e sim na forma como os candidatos desenvolvem sua campanha.
Pessoalmente estou convencido de que o voto (ainda) é determinado muito mais por estratégias de êxito dos “marqueteiros” da campanha do que pela consciência dos eleitores. Num jogo de sombras e luzes, a eleição transformou-se num grande espetáculo no qual interessa convencer os eleitores e não a verdade. Dane-se a viabilidade das propostas, pensam candidatos. Afinal, quem se lembra ainda das promessas da eleição passada, feitas e não cumpridas? Quando o questionamento surge, sempre é possível uma boa explicação para a inexplicável omissão na execução das propostas. Basta um eficiente jogo de sombras e luzes. Vote consciente, se for possível!
*José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da UNIOESTE, Campus de Toledo.
Semíramis Alencar
1549 – Na recém-fundada cidade de Salvador-BA, com os padres jesuítas. Em duzentos anos, esta ordem instalaria muitas escolas por todo o país. Os jesuítas catequizavam os índios e os instruíam em assuntos religiosos, ensinavam os filhos dos colonos portugueses a ler e escrever, formando a elite local, as grandes oligarquias.
Nossas primeiras escolas reuniam crianças índias e portuguesas, mas aos poucos os indígenas foram excluídos do ensino. No século XVIII, já existiam colégios com nível médio, internatos nos quais estudavam apenas meninos. O único curso superior existente era o de teologia. Para outras carreiras era preciso ir para a Europa.
Com a chegada da Família Real, em 1808, a educação do país começa a mudar. Com a presença da corte, novos hábitos e costumes foram trazidos para o cotidiano da colônia Os portos se abriram à outros países, instalou-se a imprensa, surgiram os primeiros museus e bibliotecas e foram criados cursos de direito e medicina.
Em 1837, foi fundado no Rio de Janeiro, o Colégio Pedro II, que deveria de ser um modelo para outras escolas. Só ele fornecia o diploma de bacharel, título necessário na época para cursar o nível superior. Foram também criados nessa época colégios religiosos e alguns cursos de magistério em nível secundário, exclusivamente masculinos.
Na segunda metade do século XIX expandiu-se a cultura cafeeira, estradas de ferro foram construídas, formaram-se bancos e surgiu o telégrafo. A classe média urbana aumentou. Antes mesmo da Abolição dos escravos em 1888, levas de imigrantes chegaram ao país para substituir a mão de obra escrava. A partir desse período, a liberdade de culto e de ensino no Brasil passou a ser defendida.
Durante todo esse tempo não foi estabelecida nenhuma política educacional. Os ensinos fundamental e médio ficavam a cargo das províncias. O ensino médio era visto apenas como um meio para entrar para a faculdade.
Era um ensino improvisado, de condições precárias e professores malformados. A educação permanecia voltada exclusivamente para os interesses das classes dominantes: os grandes fazendeiros, a nobreza e o alto funcionalismo.
Na década de 20, o índice de analfabetismo atingia 80% da população. Com a industrialização e crescente urbanização, o povo passou a reivindicar o direito de freqüentar a escola e o aumento de vagas no sistema escolar.
Da década de 30 até o início dos anos 50, houve um período de expansão do ensino, com especial atenção ao secundário. Esse tempo foi marcado pela criação do Ministério da Educação e Saúde, em 1930. Esse ministério estruturou nosso sistema de ensino e o das universidades, criadas inicialmente no Rio de Janeiro (Capital Federal) e São Paulo.
Entre 1945 e 1964, o país viveu uma época de democracia política e crescimento econômico. Em 1961 foi aprovada, após muita divergência, a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 4024/61). Em torno dessa lei houve severas discussões sobre a quem deveria de caber o ensino, se às instituições particulares (a igreja católica) ou à União.
Quando o país estava em meio a um processo de modernização cultural e social no início dos anos 60, os militares tomaram o poder impondo uma ditadura violenta e repressiva. A participação política acabou: foram proibidas as manifestações estudantis, os professores contrários ao regime foram expulsos das universidades e muitos tiveram de se refugiar no exterior para não serem mortos. A censura impedia a livre expressão do pensamento.
Em 1971, uma nova LDB, a lei 5692/71, aumenta a obrigatoriedade da educação de 4 para 8 anos; integra todos os níveis de ensino e acaba com a separação entre secundário e técnico; elimina também os exames de admissão para o ginásio (fundamental 5ª à 8ª). Apesar desses avanços, foi um período negro para a educação no país, uma vez que educação é feita com liberdade de expressão e respeito à cultura e à memória dos indivíduos.
No final da década de 70, começa a retomada da democracia, impulsionada por grandes manifestações de todos os segmentos da sociedade. Em 1982, os brasileiros voltaram a escolher os governadores de suas cidades pelo voto direto. Em 1984, o povo foi às ruas exigindo as eleições diretas para presidente da república, o movimento “Diretas, já !”. Em 1985, foi eleito o presidente Tancredo Neves, representante da oposição ao regime militar.
Com a Constituição de 1988, nossa Carta Magna, a educação brasileira obteve vitórias significativas como:
• A gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
• A extensão gradativa do ensino obrigatório e gratuito ao ensino médio;
• O atendimento a crianças de até seis anos em creches e pré-escolas;
• A determinação da quantidade de recursos que estados e municípios devem aplicar na área educacional;
• A prioridade do ensino fundamental;
• A educação como obrigação a ser compartilhada entre estado e família.
Em 1996, foi aprovada a terceira LDB, a 9394/96, antes do final da década de 90, o país já oferecia vagas no Ensino Fundamental à todas as crianças e adolescentes. Com o repasse de recursos da União para os estados e municípios, é possível melhorar a formação dos professores e sua situação salarial. Com estas reformas se espera que sejam otimizados os prédios bem como a construção de novos estabelecimentos escolares. Junto a este processo, também é desejável a adequação dos currículos e da avaliação, a igualdade de relações na escola também se faz necessária na formação de uma escola para a sociedade.
Semíramis Alencar
As escolas somente se consolidaram a partir de 1600. Antes, embora existissem estabelecimentos de ensino, especialmente os religiosos, os meninos eram geralmente, encaminhados a uma profissão e as meninas ficavam em casa para o aprendizado das prendas do lar, a espera de um consorte.
Com o tempo, os conhecimentos humanos se expandiram, tornando-se complexos. As escolas se multiplicaram, para atender as classes mais afortunadas para que tais conhecimentos fossem transmitidos para a geração seguinte. Nisto, a maior parte da população continuava analfabeta.
A industrialização dos séculos XVIII e XIX ajudou a mudar este quadro. Aumentou a necessidade de se escolarizar a população, pois a complexidade do trabalho necessitava de uma mão de obra mais qualificada.
A ciência continuou avançando e trazendo benefícios a toda sociedade, então a educação, já não poderia ser restrita apenas às classes dominantes.
No século XIX, as idéias de uma escola elementar gratuita, que atendesse à todos, começou a se tornar realidade. Era o inicio de uma revolução que continuou no século XX, marcado pela implantação dos grandes sistemas educacionais.
A escola elementar tornou-se pública, gratuita e leiga, ou seja, não religiosa. Sua estrutura se divide em três níveis:
• O elementar: no qual se aprendia a ler, escrever e contar;
• O secundário: no qual outras disciplinas eram estudadas;
• Universitário ou superior.
Todavia, apesar desses progressos, o Brasil e os países latino-americanos ainda hoje não oferecem acesso pleno nem mesmo à escola elementar, devido à marginalização e as desigualdades sociais como um todo.
No Brasil ainda não temos um sistema educacional exemplar e único, tampouco nossos profissionais são preparados e constantemente avaliados e capacitados, recebendo uma remuneração que não supre nem as necessidades básicas.
Com os avanços tecnológicos, a educação latino-americana se perde em meio a novas teorias e metas inalcançáveis – se quase não se consegue instruir a população no ensino elementar, como se pode sonhar com educação digital e democratização da internet? - assim, a sociedade cai como um todo, perante os países ricos.
Enfim, ainda hoje a educação está dividida em escola para rico e escola para pobre – a particular e a pública: uma que forma e encaminha para o mercado de trabalho capitalista e a outra que seleciona e exclui, formando a mão de obra desqualificada e oprimida.
Semíramis Alencar
Para pensar a educação, sob o pensamento de Lev Semenovich Vygotsky numa atuação dos professores, é importante destacar que enfrentaremos aqui a complexa relação entre propostas teóricas e práticas pedagógicas, tão relevante na área da educação.
A tensão entre a teoria e prática é uma constante na área da educação. A teoria pode alimentar a prática, mas não fornecer instrumentos metodológicos de aplicação imediata. O necessário é buscar em cada autor elementos que forneçam dados para a reflexão em torno da questão educacional.
Os processos de desenvolvimento e de aprendizagem e suas relações interligadas são o foco central do pensamento de Vygotsky. Sua abordagem é essencialmente genética, pois busca a origem e o desenvolvimento dos processos psicológicos, desdobrando-se nos níveis filogenéticos (desenvolvimento da espécie humana); ontogenético (desenvolvimento do indivíduo) e microgenético (desenvolvimento dos aspectos específicos do repertório psicológico dos sujeitos).
A importância que Vygotsky atribui à dimensão sócio-histórica do funcionamento psicológico e à interação social na construção do ser humano é igualmente central em sua concepção sobre o homem e suas relações com os indivíduos. A interação do sujeito com o mundo se dá através da mediação feita por outros sujeitos.
Para ele, a aprendizagem está relacionada ao desenvolvimento desde o inicio da vida humana. O percurso de desenvolvimento do ser humano é, em parte, definido pelos processos de maturação do organismo individual. Mas, é a aprendizagem que possibilita o despertar dos processos internos de desenvolvimento.
A concepção de ensino-aprendizagem de Vygotsky inclui dois aspectos relevantes: primeiro, a idéia de um processo que envolve, ao mesmo tempo, quem ensina e quem aprende não se refere necessariamente a situações em que haja um educador fisicamente presente. Segundo, quando a aprendizagem é um resultado desejável de um processo deliberado, explicito, intencional.
Para Vygotsky a escola é o lugar por excelência onde o processo intencional de ensino-aprendizagem ocorre: ela é a instituição criada pela sociedade letrada para transmitir determinados conhecimentos e formas de ação no mundo: sua finalidade envolve, por definição, processos de intervenção que conduzam à aprendizagem.
Na escola, o professor é uma pessoa real, fisicamente presente diante daquele que aprende, com o papel explicito de intervir no processo de aprendizagem (logo, de desenvolvimento).
O processo de ensino-aprendizagem ocorre às vezes de maneira informal, por meio da imersão do sujeito em situações da vida cultural. Às vezes acontece de forma deliberada, pela ação clara e voluntária de um educador que dirige este processo.
Embora processos de aprendizagem ocorram constantemente na relação do indivíduo com o meio, quando existe a intervenção deliberada de um outro social nesse processo, ensino e aprendizagem passam a fazer parte de um todo único, indissociável, envolvendo quem ensina, quem aprende e a relação entre essas pessoas.
Implicações para o ensino escolar
São três, as idéias básicas de Vygotsky para a questão do ensino escolar:
1. O desenvolvimento psicológico deve ser olhado de maneira prospectiva, isto é, para além do momento atual: a idéia de transformação na educação ganha um destaque posto que se interessa em compreender tudo aquilo que vem a ser de novo na trajetória do indivíduo, os “brotos” ou “flores” ao invés de seus frutos. (Vygotsky, 1884).
2. É fundamental para a educação que os processos de aprendizado movimentem os processos de desenvolvimento. A trajetória do desenvolvimento humano se dá “de fora para dentro”, por meio da internalização de processos interpsicológicos. As metas e os processos do desenvolvimento humano são sempre definidos culturalmente. Por exemplo, um indivíduo que passe toda a sua vida no interior de um grupo cultural àgrafo, jamais será alfabetizado, este é um exemplo claro de um processo de desenvolvimento que não ocorre se não houver situações de aprendizado que o provoquem.
3. A importância da atuação dos outros membros do grupo social na mediação entre a cultura e o indivíduo e na promoção dos processos interpsicológicos que serão posteriormente internalizados.
O indivíduo não tem instrumentos endógenos para percorrer sozinho, o caminho do pleno desenvolvimento. Não basta o contato com objetos de conhecimento ou a imersão em ambientes informadores porque não promove necessariamente o desenvolvimento balizado por metas culturalmente definidas.
A intervenção deliberada dos membros mais maduros da cultura no aprendizado das crianças é essencial ao seu processo de desenvolvimento.
A importância da atuação de outras pessoas no desenvolvimento individual é evidente em situações em que o aprendizado é um resultado claramente desejável nas interações sociais.
Os procedimentos regulares que ocorrem na escola – demonstração, assistência, fornecimento de pistas ou senhas, instruções, etc – são fundamentais para a promoção de um ensino capaz de promover o desenvolvimento. A intervenção do professor tem, pois, um papel central na trajetória dos indivíduos que passam pela escola.
A escola é um lugar social onde o contato com o sistema de escrita de escrita e com a ciência enquanto modalidade de construção de conhecimento se dá de forma sistemática e intensa, potencializando os efeitos dessas outras conquistas culturais sobre os modos de pensamento.
A questão da alfabetização
A escrita, sistema simbólico que tem um papel mediador na relação entre o sujeito e o objeto de conhecimento, é um artefato cultural que funciona como suporte para certas ações psicológicas, como instrumento que possibilita a ampliação da capacidade humana de registro, transmissão e recuperação de idéias, conceitos e informações. A escrita seria uma espécie de ferramenta complementar que possibilita uma maior capacidade de registro, de memória e de comunicação.
A escrita não é apenas um código de transcrição da língua oral, mas um sistema de representação da realidade e de que o processo de alfabetização é o domínio progressivo desse sistema, que começa muito antes da escolarização da criança.
Mesmo imersa em uma sociedade letrada, a criança não desabrocha espontaneamente como uma pessoa alfabetizada: a aprendizagem de um objeto cultural tão complexo como a escrita depende de processos deliberados de ensino. A mediação de outros indivíduos é essencial para provocar avanços no domínio desse sistema culturalmente desenvolvido e compartilhado.
Enquanto a teoria de Emília Ferreiro está centrada na natureza interna da escrita enquanto sistema, a de Vygotsky e de Luria centra-se nas funções desse sistema para seus usuários. O processo de Ferreiro investiga o processo pelo qual a criança adquire o sistema de escrita de sua natureza, articulação interna e regras de funcionamento. O trabalho de Vygotsky e Luria, por sua vez, volta-se para a investigação de como a criança apreende as funções da escrita e de como desenvolve a necessidade de utilizá-la como instrumento psicológico.
O processo de escrita da criança se dá em 4 fases à seguir:
1. A criança passa por uma fase de imitação do formato externo da escrita: faz “rabiscos” que imitam fisicamente a escrita do adulto, mas sem valor instrumental.
2. A criança passa a utilizar o que Luria chama de “marcas topográficas”: registros gráficos distribuídos pelo papel cuja posição no espaço poderá auxiliar na leitura posterior dessa escrita. É a escrita atuando como instrumento auxiliar da memória.
3. A criança passa a produzir uma escrita claramente ligada ao conteúdo da fala a ser registrada, fazendo diferenciações de acordo com o tamanho, a quantidade, a forma ou a cor do referente. A criança após esta fase será capaz de utilizar representações pictográficas como forma de escrita, produzindo desenhos simplificados para registrar diferentes conteúdos da fala.
4. A partir deste momento a criança, provavelmente já envolvida em situação de escolarização formal passará ao processo de apropriação do sistema convencional de escrita.
Portanto, podemos constatar que o indivíduo apresenta-se em cada situação de interação com o mundo social, num momento de sua trajetória particular, quando traz consigo determinadas possibilidades de interpretação e ressignificação do material que obtém dessa fonte externa.
Para os seres humanos, enquanto usuários da linguagem natural, é normal questionar ou afirmar relações entre pensamento e linguagem; quando os grupos humanos tornam-se letrados, passamos a refletir também sobre as conseqüências psicológicas da invenção da escrita e os efeitos da alfabetização.
Estudo baseado nos livros:
Pensamento e Linguagem - Lev Semeniovich Vygotsky
Pensar a Educação – Contribuições de Vygotsky – Martha Khol de Oliveira.
O Impacto Social Frente às Novas Tecnologias Aplicadas à Educação
by Francisco on terça-feira, 22 de junho de 2004
Semíramis Alencar
“Aprender é descobrir o que você já sabe; Fazer é demonstrar que você o sabe; Ensinar é mostrar aos outros que eles sabem tanto quanto você”.
[ Richard Bach – Ilusões. As Aventuras de um Messias Indeciso]
Os novos tempos pedem um ensino individualizado, globalizado, mais informações em menos tempo. Todavia, o importante é integrar as diversas visões de mundo com equilíbrio, flexibilidade e organização: adaptando às diferenças individuais e locais, gerando condições de igualdade. A organização estabelece metas, regras, dissolução de conflitos e conciliação de divergências, os tempos e os conteúdos, estabelecendo desta forma, parâmetros fundamentais para a educação.
Pode ser que o ensino à distância, via Internet facilite o processo de ensino-aprendizagem de quem já concluiu o ensino médio: indivíduos preocupados em se especializar, graduar e obter maior conhecimento sobre determinadas áreas de seus interesses. Esta forma de ensino favorece a quem não tem tempo para o estudo convencional por estar garantindo sua sobrevivência trabalhando, favorecendo uma pós-graduação, um mestrado que aumentará suas chances de ascensão profissional.
E quanto às experiências pessoais? O lado humanitário? Como se pode pregar valores como cooperação, resolução de conflitos, respeito às opiniões alheias em prol de uma sociedade mais humana se na estrutura basilar da educação, o professor, condutor do conhecimento e do exemplo a ser seguido quer, simplesmente excluir-se do processo tornando-se apenas um agente “facilitador”, um mero simplificador? Se começar assim, não precisaremos mais de professores, nem de regras (uma vez que as primeiras regras ditadas na vida social, partiram da mão benevolente e enérgica da “tia” do ensino fundamental, na mais tenra infância).
Contudo, é necessário antes, educar o educador. Em primeiro lugar é preciso que ele seja competente na sua especialidade, que conheça a matéria, que esteja atualizado. Em segundo lugar, que saiba se comunicar com seus alunos, motivando-os, explicando o conteúdo, mantendo o grupo atento, entrosado, cooperativo e produtivo. São profissionais natos, verdadeiros educadores.
Os grandes educadores atraem não só pelas suas idéias, mas pelo contato pessoal. Dentro ou fora da aula chamam a atenção. Seus posicionamentos, suas atitudes, sua forma de olhar, agir, relacionar-se com todos causa admiração e confiança.
Mas, de qualquer maneira o aluno é o elemento principal desta busca. Muito pouco valerá métodos de ensino, materiais didáticos, modernas mecanografias ou tecnologias arrojadas se o cotidiano do aluno, sua forma de ver o mundo em que está inserido não for respeitada, se não forem levados em conta suas perspectivas de futuro. Todo estudo deverá respeitar os ritmos de aprendizagem do aluno e seu contexto econômico e cultural.
Transformar a sala de aula em campo fértil de investigações do conhecimento é um desafio: desafio dependente não só do interesse e curiosidade dos educandos (que lhes são naturais), mas do desempenho sacerdotal dos educadores, professores e facilitadores do processo educativo e, principalmente do Governo, nas ações de combate às desigualdades sociais.
O que dizer para um aluno de ensino médio das maravilhas da tecnologia, apresentá-lo a um microcomputador na escola com CD Rom’s, vídeos explicativos de diversas disciplinas sobre tudo que o cerca, se em seu retorno ao lar ele se depara com uma realidade de pobreza, abandono, dificuldades financeiras e baixa estima de seus pais e do lugar em que vive?
Se a igualdade social no País não for promovida, qualquer tentativa de educação, por mais utópica, prática ou séria que seja, não sortirá efeito algum, pois a sociedade como um todo não absorverá as inovações propostas, permanecendo a mesma.