Política: as Lições dos Clássicos

by Francisco on sexta-feira, 20 de junho de 2003

José Luiz Ames

Vemos a palavra "política" empregada para descrever situações completamente opostas. Por vezes, é utilizada para indicar uma atividade própria de certos profissionais: os "políticos". Outras vezes, diz respeito à organização e administração de grupos: os "partidos".

O que há de comum aos dois sentidos? Em ambos, a política aparece como algo distante da vida das pessoas. É uma atividade exercida por indivíduos, os "políticos", que através dos partidos se ocupam exclusivamente disso. A política é feita "por eles" e não por "nós". Ela aparece como um poder distante e exercido por pessoas diferentes dos cidadãos comuns. Por isso, aqueles que a realizam, os "políticos", são vistos como interesseiros, isto é, indivíduos que falam do bem comum, mas se preocupam de fato com o bem particular.

Essa imagem da política como um poder do qual somos vítimas condescendentes, contradiz tudo o que os grandes pensadores escreveram sobre o assunto. Por que os homens inventaram a política? Certamente, não para preencher esta finalidade que o senso comum lhe atribuiu.

Em primeiro lugar, a política foi inventada para regular os conflitos entre os homens. Somos diferentes e temos interesses e visões de mundo divergentes. A política foi inventada para permitir que expressássemos essas diferenças sem causar a destruição uns dos outros. Em segundo lugar, toda sociedade está internamente dividida. Esta divisão nasce das diferenças entre os indivíduos. Por isso, a política foi inventada para servir de instrumento de discussão e deliberação conjuntas daquilo que diz respeito a todos.

O que me leva a escrever sobre esse tema? Talvez alguns lembrem das reflexões que publiquei um tempo atrás numa coluna dominical nesta mesma "Gazeta de Toledo" sobre o pensamento de Maquiavel. Muitas pessoas me disseram que esses artigos as fizerem pensar sobre o lugar do cidadão e a tarefa política. Para esses leitores, o jornal é praticamente a sua única leitura e apreciaram a idéia de encontrar uma fonte de formação, ainda que restrita a um domínio específico, a política. Dada minha natureza falha, cedi à vaidade de inspirar a meditação dessas pessoas.

Desta vez quero trazer algumas contribuições não apenas de Maquiavel, mas dos maiores pensadores políticos da história, desde a Antigüidade até os dias de hoje. A finalidade dessas contribuições é auxiliar, ainda que modestamente, na formação da consciência política. Pretendo mostrar que, por um lado, não há como nos livrar da política. Mesmo quando nos isolamos e nos recusamos a participar de tudo o que tem cunho político, fazemos política. Ao deixarmos que os "outros" façam a política à sua maneira contribuímos para que continue tal como ela é. Por outro lado, quero deixar clara a idéia de que o único modo de opor-nos às práticas deploráveis dos "profissionais da política" é através da própria política, isto é, fazendo política.

Não tenho a pretensão de "ensinar política" com estes breves artigos semanais. Embora confesse ter cedido à vaidade, não perdi a modéstia. A política é uma prática e todos sabemos que a prática é aprendida muito mais com exemplos do que com teoria. Meu propósito é provocar uma reflexão sobre a prática a partir das lições dos clássicos do pensamento político. Estou convencido de que eles nos ajudarão a desmascarar os motivos que se escondem atrás da apropriação da política por alguns profissionais especializados. Com isso, penso ser possível desfazer a idéia negativa. Igualmente, acredito que os clássicos serão um guia seguro para formarmos uma consciência cidadã, construindo uma idéia positiva da política.

* José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da UNIOESTE/Campus de Toledo.

Filosofia: Inter-relação com a Psicopedagogia

by Francisco on segunda-feira, 12 de maio de 2003

Américo Garcia Freire Magalhães
Deise Raposo
Márcia de Araújo Ferreira
Maura Barbosa Nogueira de Oliveira
Richelle Vilarino Medrado


Partindo de uma perspectiva voltada para investigação, prevenção e tratamento dos problemas de ensino-aprendizagem, em meio a realidade, com toda a eficácia da tecnologia e os vários campos da ciência, a Psicopedagogia em inter-relação com a Filosofia, começa a “indagar, questionar e problematizar” (ANDRADE, p.5) tudo aquilo que o senso comum considera moderno e em sua ingenuidade deixa passar por despercebido.

Segundo Andrade Filho, através da Filosofia “Apelamos à uma reflexão crítica. E produzimos um tipo de saber, indo racionalmente às raízes das realidades”. Sendo assim a Filosofia assume a característica de uma ferramenta importante para a Psicopedagogia, pela sua natureza de colocar tudo em destaque e direcionar, através da “lógica” (ARISTÓTELES), o caminho a ser percorrido objetivando a solução e prevenção de problemas no meio acadêmico.

O novo mundo globalizado entra em choque com o passado, o que dificulta a formação do cidadão. O homem em meio as mudanças sofre com a modernidade, mas a filosofia através do seu “olhar” questiona o problema Psicopedagógico, “esse não do sentir e simbolizar , para tornar-se produto comercial de circulação”(ANDRADE, p.7).

Pode-se observar que os avanços e problemas na nova sociedade são originados pela ciência e tecnologia, seguindo um raciocínio lógico, não existiria a globalização sem o avanço científico e tecnológico. A epistemologia em uma atitude filosófica, vai a fundo no estudo crítico dos princípios, hipóteses e resultados das ciências já constituídas e suas técnicas, levando em conta o benéfico que pode trazer para o homem e seus riscos quando mal utilizada; evitando que a ciência imponha seu poder nas sociedades industrializadas sem nenhum exame crítico-epistemológico. Pode-se considerar utópico o ideal da “ciência pura e neutra”(ANDRADE, p.35) ao observar suas causas e efeitos em meio a um mundo tecnoglobalizado.

Em se tratando de conhecimento científico, pode-se afirmar que esse saber é construído por meio da experiência adquirida pelo homem, ser histórico, na transformação do meio visando uma melhor adaptação, sendo que “hoje em dia, é considerado um conjunto de conhecimentos metodicamente adquiridos, mais ou menos adquiridos, sistematicamente organizados e suscetíveis de serem transmitidos por um processo pedagógico de ensino”(ANDRADE, p.38), mediado através de recursos pedagógicos, servindo de base para o surgimento de novos conhecimentos. Observa-se portanto a importância do Psicopedagogo na função preventiva dos problemas relacionados a educação.

A Psicopedagogia na tentativa de explicar os problemas educacionais da realidade, usa da lógica filosófica, para poder construir o conhecimento através da dialética como guia para a investigação, organizado pelos “clássicos da filosofia”(ANDRADE, p.41), pensando o homem, a natureza e o próprio conhecimento.

Atualmente “o mercado de trabalho se amplia para o pedagogo, que poderá exercer suas funções não só no contexto escolar, mas também no setor de Recursos Humanos das empresas”(ANDRADE, p.86). A pedagogia por ser a “Ciência da Educação”(ANDRADE, p.86), embasada em conhecimentos da filosofia de vida, é atraída pelo empresarial que objetiva o êxito, no atual mercado de trabalho, pela necessidade de melhor gestão dos Recursos Humanos.

Segundo Andrade Filho, “a sociedade atual é caracterizada pela era do conhecimento e do processo de globalização das novas tecnologias de comunicação”. O enfoque filosófico de uma prática pedagógica, permite mostrar os “desafios da pedagogia nos dias de hoje é ter acesso à concepção de globalização como prática”(ANDRADE, p.101), “a produção biopolítica”(ANDRADE, p.101) em meio a sociedade tecnoglobalizada e como questão central, a formação do “educador para o novo mercado de trabalho”.(ANDRADE, p.101)

“O trabalho constitui-se um fenômeno básico para se compreender a educação”(ANDRADE, p.110). É através do trabalho que o homem vem desde o princípio transformando a natureza para sua adaptação. Este somatório de experiências que são acumuladas a medida em que o homem produz sua existência, resulta no conhecimento.

A nova sociedade estando exposta constantemente em um processo de mudança, surgem ideologias que “é sempre uma tentativa de racionalização, ou seja, de organização coerente em termos de razão social, dos fatos e dos valores”(ANDRADE, p.113).

A escola, como função social, reproduz e oficializa nas vidas dos estudantes a ideologia proposta pela sociedade. Ideologia esta que “afirma e nega; expressa verdade das realidades numa imagem invertida. Ela as oculta, oferecendo aos homens uma representação mistificada do sistema social, para mantê-los em seu “lugar” no sistema de exploração de uns pelos outros”(ANDRADE, p.114).

Percebe-se atualmente que várias pessoas contribuem que nada evolua pela simples ideologia “de não ter problemas”. Portanto, no ambiente educacional, tenta-se fazer com que o estudante seja acima de tudo cidadão atuante e modificador do meio, interagindo e protestando contra o sistema “repressor” que alega ser “democrático.

Conclui-se segundo Bortolanza que a Psicopedagogia em inter-relação com a Filosofia, tem como início para a investigação dos problemas psicopedagógicos do insucesso acadêmico, o “confronto entre o mundo teórico e a práxis universitária”(2002, p.29). Observa-se com esse contraponto que “é possível compreender e projetar o mundo que se quer”(2002, p.29). Para que isso ocorra é necessário buscar “um entendimento do ser humano como ser histórico, o que significa questionar-se sobre suas intencionalidades e não apenas problematizar, discutir, saber.”(2002, p.29)

Ainda de acordo com Bortolanza, “Na dialética entre aprendizagem e avaliação, coloca-se a aprendizagem sob o ponto de vista do desenvolvimento do ser humano e a avaliação como ato crítico de reorientação e construção de possibilidades.”(2002, p.35)


Referências Bibliográficas

ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. Filosofia e Epistemologia em debate, p. 5, 20, 6 - 8, 34 - 36, 38 - 40, 41 - 43, 86 - 88, 101 - 103, 110 - 112, 113 – 115. Disponível em http://www.orecado.cjb.net>. Acesso em 26 de julho de 2003.

BORTOLANZA, Maria de Lourdes. “Pedagogia crítico-social”, in: Maria Lourdes Bortolanza. Insucesso Acadêmico na Universidade. Abordagens psicopedagógicas, Erechim/RS: 2002, 29 a 38.

Ficus ou Visgueiro

by Francisco on segunda-feira, 10 de março de 2003

Edilton Siqueira

Há pessoas que passam a maior parte de seu tempo em buscas existenciais, viagens do pensamento, pesquisas, raciocínios sobre a vida e a morte, o tempo e o espaço. São considerados visionários, sonhadores ou simplesmente desocupados, quando não são taxados por loucos ou alienados.

Outros não perdem seu tempo com esse tipo de preocupação. Vivem no automático, de forma prática. Acordar, trabalhar, comer, procriar, dormir. E tudo novamente no outro dia. Esses últimos correspondem à quase totalidade da população, e não são, nem de longe, sonhadores.

As pessoas mais práticas são, normalmente, mais imediatas. Isso não significa que sejam insensíveis ou não tenham visão de futuro, pelo contrário. Muitas das análises de contexto mais acertadas provém desses indivíduos. São capazes não apenas de apreender o momento com exímia coerência, mas de apontar as melhores soluções para o curto e médio prazos.

São práticos os formadores de opinião mais comentados. Freqüentemente aparecem nos jornais e revistas lançando suas opiniões, muitas vezes duras, ácidas, algumas dotadas de extremo bom humor, e todas de acordo com o contexto. É deles o público cativo das crônicas - que nem são tão populares, pois o povo brasileiro infelizmente lê pouco. Mesmo assim, tais articulistas têm seu espaço garantido.

Os menos famosos se conformam em comentar os primeiros e a si mesmos em conversas de mesa de bar. Isso não apenas em tempo de Copa do Mundo, quando todos os brasileiros tem uma escalação na ponta da língua. Os práticos estão sempre prontos a opinar sobre tudo, desde o sexo na adolescência até a soberania da Amazônia brasileira, com soluções na ponta da língua para os maiores problemas do Brasil.

Se não houver solução imediata, sempre existe um meio de fugir dos problemas. Importante, em todo caso, é resolver aqui e agora, pois ninguém pode viver para o amanhã, deixando o presente de lado. Parece inútil se preocupar com a fome no Piauí ou com os mendigos nos sinais. Salutar é guardar cautela excessiva para garantir o pão de amanhã, ainda que se tenha a íntima certeza de que a ceia será, no curto prazo, um belo e farto panetone.

Tudo parece mesmo muito simples. Ou tem uma solução fácil, radical, ou não tem jeito mesmo e não adianta lutar. E a vida segue assim, imediata, a quente, feita na hora. Talvez por isso o argumento de um amigo seja importante, dizendo que boa parte dos reflorestamentos são feitos com uma árvore conhecida por ficus, de crescimento rápido. Assim, parecem ser melhores as soluções mais rápidas, imediatas, efetivas, como uma plantação de ficus.

Tenho respeito pelos que conseguem resolver mentalmente problemas fundamentais da humanidade com soluções tão rasas quanto um pires. Ou mesmo aqueles que, por outro lado, não enxergam as tais soluções simples e definem logo uma rota de fuga. Só lamento essa praticidade em defender os próprios muros em detrimento das calçadas dos outros. Os práticos consideram que jogar tênis é muito fácil, mas esquecem que as coisas complicam quando se usa uma bola. E muitas vezes não se pode simplesmente abandonar o jogo. Felizmente não posso agir dF= da mesma forma.

Como disse, há outro tipo de pessoas, que consideram a vida, o tempo e o espaço para além de si mesmos, pensam o viver para além da própria existência. Isso não implica necessariamente um subterfúgio religioso, sobrenatural, como num renascimento ou reencarnação. A extensão é mais simples e se chama "legado sócio-cultural". Deixar às próximas gerações ferramentas para trabalhar, subsídios para que possam fazer também melhores as suas próprias vidas.

Se os esforços mínimos de algumas pessoas aparentam ser inúteis, ao menos servem de exemplo para os que vierem depois. O trabalho voluntário no Brasil, por exemplo, não é revolucionário, mas já se tornou expressivo. Se isso não melhora o sistema em curto prazo, se não resolve os problemas imediatos, pode ser porque algumas questões levam anos ou mesmo séculos para serem equalizadas.

A história não pára, e assim como os tempos de guerra se sucedem de forma assíncrona, também as boas soluções apresentam seu desenrolar conseqüente. As maiores idéias e ações de fraternidade, de democracia, de respeito à vida humana, não vieram do "lugar nenhum". Todos os elementos culturais envolvidos em um raciocínio, em um pensamento, são um produto legado por todos os "sonhadores" antepassados.

Verdadeiros gênios do pensamento humano não viveram a aplicação de sua obra. Sócrates morreu condenado ao envenenamento, mas não abriu mão de suas idéias nem viu seu pensamento sair da Grécia. Mesmo assim, é pedra fundamental de toda a filosofia ocidental. Se fosse mais um prático, teria se confortado em seu entendimento sobre o mundo, e ponto. Nada de filosofia e, portanto, nada de Física, Medicina, Ética, Estética, Política, Direito ou Economia, para citar alguns produtos "inúteis" derivados das idéias de um visionário.

Pode parecer muito interessante ser prático, raso, imediato. Mas não resolve os grandes problemas do mundo. Pode garantir o pão dos filhos, mas não garantirá a liberdade dos netos. E longe de pregar a fome da prole, digo que é necessário tomar parte na solução dos problemas fundamentais, que continuarão a existir mesmo após a morte de uma terceira geração. Desviar pode ser fácil e simples. Driblar as dificuldades pode resolver agora, amanhã, daqui a cinqüenta anos, mas não tem sido uma boa alternativa para nossos quinhentos anos de "civilização".

Nas comparações sobre a pujança da reconstrução européia no pós-guerra, muitos atestam como explicação o fato de que a Europa goze de uma cultura em formalização há milênios. No entanto, se eles têm raízes fortes, nós também temos. Os E.U.A. têm a mesma idade que a América Latina, no entanto são os senhores da economia mundial. A diferença não é de tempo de vida, mas de atitude diante da história.

Não é apenas agora o momento do Brasil tomar as rédeas de sua própria história. Esse momento sempre existiu, desde antes da invasão portuguesa e até o final do governo Lula, e em todo o tempo seguinte. É trabalho de todo dia, é preocupação de todas as pessoas e motivo de conversa de todas as mesas de bares entre todos os amigos.

Ainda que se façam reflorestamentos com "ficus", esta não é a única árvore do Brasil. Há muitas outras que podem ser replantadas, cultivadas, desenvolvidas. Algumas pessoas só plantam árvores que possam ver crescidas. Considerando uma expectativa de vida de 70 a 80 anos, todas as árvores que não tenham um crescimento acelerado, como a sequóia por exemplo, estariam fadadas à extinção gradual se o mundo fosse habitado apenas pelos práticos.

O mesmo ocorre com as boas idéias. Se todos os brasileiros estiverem apenas preocupados com o pão de amanhã e depois, em breve não haverá Brasil. E se há pessoas que podem se preocupar menos com esse fato, que sejam então os primeiros a buscar soluções e caminhos para que seus filhos e os amigos de seus filhos tenham um futuro melhor que o nosso.

As soluções nem sempre são fáceis. Os caminhos podem ser tortuosos, lentos, nada práticos. E nossos esforços de uma vida inteira podem nem servir para coisa alguma. Apesar de tudo, é fundamental buscar um papel na defesa do que é certo e justo, na correção das falhas, na melhoria da vida humana. Creio que seja essa a revolução possível, um meio termo entre o sonho e a atitude.

Meu pai gosta de árvores. Cultiva, entre outras coisas, visgueiros e araucárias, árvores de crescimento lento. Hoje ele tem sessenta anos. Ambos sabemos que não viverá para ver seu visgueiro alto, imponente, com sua copa de trinta metros de altura e sessenta de envergadura. Eu mesmo não o verei com esse tamanho. Mas nós conhecemos uma árvore assim, numa fazenda do interior, plantada tempos atrás por algum sonhador desocupado.

Tenho certeza de que nossos netos e bisnetos herdarão muitos dos problemas que enfrentamos hoje, e buscarão, muitas vezes, soluções fáceis e imediatas, como o ficus. Ainda assim, se o mundo não se tiver tornado prático demais, haverá sonhadores, como eu e meu pai. E quando nossos descendentes olharem para o alto à procura dos valores que deixamos, entre as diversas obras fundamentais ao espírito criador da humanidade, entre as muitas árvores seculares e majestosas, encontrarão o visgueiro que plantamos um dia, e cuja imponência nunca pudemos enxergar.

Recife, 10 de março de 2003.

Hiperatividade: sucesso de aprendizagem segundo o pensamento de Nadia Bossa

by Francisco on domingo, 16 de fevereiro de 2003

Érida Farias de Araújo / Eveline Mª Farias de Araújo / Renata Wanderley Santos Rosa / Salete Bernardo da Silva

1. INTRODUÇÃO

Nadia Bossa (cit Kiguell 1991; 200, p. 18) “historicamente a Psicopedagogia surgiu na fronteira entre a Pedagogia e a Psicologia, a partir das necessidades de atendimento de crianças com distúrbios de aprendizagem, consideradas inaptas dentro do sistema educacional convencional” e no momento atual (2000, p. 18) “à luz de pesquisas psicopedagógicas que vêm se desenvolvendo, inclusive no nosso meio, e de contribuições da área da psicologia, sociologia, antropologia, lingüística, epistemologia , o campo da psicopedagogia...” numa perspectiva de compreensão mais integradora do fenômeno da aprendizagem e uma atuação de natureza mais preventiva.“Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado, nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade” (Charles Chaplim). Então o cérebro é o órgão da atividade mental, encarado como órgão da civilização, órgão que é capaz de refletir todas as complexidades, plasticidades e intrincadas condições do mundo envolvente e todas as manifestações superiores da atividade humana, materializadas no movimento e na linguagem.

Numa perspectiva interdisciplinar a luz da Psicopedagogia tratar-se-á de elucidar uma ambigüidade do termo Hiperatividade, com ou sem déficit de atenção, que surge na infância, meninice ou adolescência como um transtorno na aprendizagem.

A dificuldade no diagnóstico, bem como a transposição dos sintomas podem exacerbar ou contribuir para outros déficits na aprendizagem.

Silver (1989) relembra que antes de 1940, se classificavam as crianças com dificuldades de aprendizagem como “transtornados emocionalmente" (emotionally disturbed), como “retardados mentais” ou como “desvatajados culturais”. Esses transtornos podem produzir, e de fato produzem, dificuldades na aprendizagem, contudo é somente a partir dos anos 40 que se acolhe a possibilidade de causas neurológicas, sugerindo-se às dificuldades ou problemas de aprendizagem causados por dano cerebral, tal como sugerem em 1941, Werner e Straus, ao tratar-se de crianças de “aparência normal.

A idéia surgiu da necessidade de compreender e contribuir nas produções ou distorções do processo ensino-aprendizagem, grande parte nas crianças ansiosas, angustiadas, castigadas, agitadas, irrequietas, hiperativas.

Ouvindo professores, pais, médicos e a própria criança, tentando entender a cabeça e o coração de pessoas ainda tão pequenas que se debatem em um mundo difícil de compreender.

Nesta linha de pensamento a Psicopedagogia não pode ser aplicada sem percorrer um caminho em que é necessário pensar sobre o processo de aprendizagem humana: seus padrões de evolução normais e patológicas, assim como a influência do ambiente (família, escola, sociedade) no seu desenvolvimento.

A “Psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar, levando sempre em conta as realidades interna e externa da aprendizagem, tomadas em conjunto. E, mais, procurando estudar a construção do conhecimento em toda a sua complexidade, procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos, afetivos e sociais que lhes estão implícitos” (cit Neves, 1991, p. 21; Bossa 2000, p. 19)

Diante desta preocupação, a ação profissional deve englobar vários campos do conhecimento, na tentativa de integrá-los e sintetizá-los.

Alícia Fernandez (cit Bossa, 2000, p 24), nos revela que todo sujeito tem a sua forma de aprender, o meio, as condições e limites para conhecer; sua maneira própria, pessoal de desenvolver-se, de constituir seu saber.

Os estudos de Luria revolucionou a psiconeurologia e as demais ciências, com os estudos sobre o cérebro-comportamento. Para Luria a atividade mental humana se processa na interação com as atividades exteriores, estabelecendo novos sistemas funcionais, permitindo-lhe integrar novas formas de percepção, de memória, de pensamento, e de consequentemente, novos processos de organização das ações voluntárias. Há algo de cultural e de sócio-histórico que não pode ser negado.

O desenvolvimento mental da criança não é uma simples maturação dos intuitos naturais; ele desdobra-se no processo da atividade objetiva e na comunicação com os adultos, onde estão contidas a práxis e a linguagem humana. Se, essa atividade e sem essa mediação, a criança não alarga os seus atributos humanos potenciais, e não desenvolve as sus funções psíquicas superiores.

“O ser humano nasce com um cérebro imaturo e inconcluso” (Fonseca, 1984, p50). Então, só alguns processos, como reflexos, estão presentes à nascença; e outros processos dependem da ajuda exterior para organizar-se. A organização da conduta que reflete uma organização psíquica interior, não meramente dependente de estímulos do meio envolvente ou do corpo, mas de sinais que a própria organização psíquica criou e aos quais ela se submete para se unir em termos de atividade mental.

A transformação do mundo exterior, é capaz de desencadear e produzir ações motoras e mentais construtivas, sequenciadas e mediatizadas pelos instrumentos, que o homem imaginou, criou e utilizou, e que está na base da construção da sua “consciência” (Silva, p. 41), verdadeiro substrato do desenvolvimento cerebral e verdadeiro ministério só comparável ao da origem da vida.

A consciência nada mais é que o contato social consigo mesmo, saindo dos limites explicativos subjetivos e biológicos revolucionista, para se projetar nas formas objetivas da vida social e da relação do homem com a natureza, com o meio.

Bossa (cit Dorneles, in Scoz et Allui, 1987; 2000, p. 19), o “fracasso escolar fundamenta-se em discursos que superam o psicológico e negam o pedagógico, pois elas falam de desnutrição, problemas neurológicos e problemas psicológicos”.

“Os transtornos por déficit de atenção e hiperatividade, são incluídos nos transtornos de início de infância, meninice ou adolescência. Trata-se de um padrão de conduta que as crianças e adolescentes apresentam em relação a dificuldades no desenvolvimento da manutenção da atenção, controle de impulsos, assim como a regulagem da conduta motriz em resposta às demandas da situação (Anastopoulos e Barkley, 1992). Historicamente, este tipo de criança foi classificado em categorias como: hipercinesia, ou transtorno por déficit de atenção com ou sem hiperatividade”.

Dentro da grande profusão de livros a respeito das crianças hipercinéticas, notadamente há uma confusão, visto ter-se muitos nomes utilizados para teorizar sobre o “problema”.

Still, demarcou historicamente em 1902, considerando-se problemas de “inibição voluntária” e originados por “dificuldades do controle moral”. Nos anos 30 Childers ou Levin, centraram-se mais no componente hiperativiade motora, considerando-se originador por alterações neurológicas. A idéia do componente motor como foco central do transtorno, persistiu durante os anos 50 e 60, incluindo o extremo ao longo de um contínuo dentro da variabilidade normal, inclusive se abandonando o aspecto causal e assumindo o aspecto da conduta de hiperatividade e motora, passando a chamar-se síndrome hipercinética infantil.

Nos anos 70, reconheceu-se que o problema de atenção ou do controle dos impulsos era ainda mais importante que o de hiperatividade motora, influenciando na mudança operada em 1980 ao propor o transtorno por déficit de atenção com e sem hiperatividade. A crença geral, supõe como problema central, a hiperatividade motora, sendo que casos em que não houvesse hiperatividade, seriam chamados de transtornos por déficit de atenção indiferenciados.

Os sintomas primários, segundo Anastopoulos e Barkley (1992), seriam a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade; além de outros que não seriam tão amplamente aceitos como os déficits na conduta governada por regras ou a variabilidade nos processos executivos.

A prevalência, estaria em torno de 3 e 5%, sendo estável através de diferentes grupos sócio-econômicos e culturais, ainda que se costume encontrar seus meninos para cada menina diagnosticada, contudo estudos mostram que a média é de três meninos para cada menina.

Surge outros problemas secundários ou co-mórbidos, tais como:

1. De conduta, transtornos oposicionais-desafiantes, ou como vandalismo, etc.
2. Implicações emocionais, tais como hipersensibilidade, baixa auto-estima, baixa tolerância à frustração e, inclusive, sintomas de depressão e ansiedade.
3. Problemas de socialização.
4. Problemas familiares, dificuldades na execução acadêmica, apresentando rendimentos menores que os esperados pelo seu potencial estimado, também classificados como disléxicos ou com outras dificuldades de aprendizagem, pelo que muitas crianças com transtorno por déficit de atenção e hiperatividade, (TDAH), são classificadas como aquelas que deverão receber ajuda de programas para educação especial.
5. Habilidades cognitivas e lingüísticas, apresentando, muitos deles, dificuldades nas tarefas de resolução de problemas complexos ou nas habilidades organizativas, e, inclusive, acontecendo freqüentemente problemas de fala e linguagem.
6. Dificuldades com a saúde.

Hoje, assume-se que se trata de um problema diferente das dificuldades de aprendizagem, ainda que, durante o curso do transtorno, apareçam baixos aproveitamentos acadêmicos, mas a falta de atenção, a impulsividade e a hiperatividade motora, ou, inclusive, os problemas advindos nos processos executivos ou nas condutas governadas por regras permitirão que se faça o diagnóstico diferencial. Poderá ocorrer superposição do transtorno com dificuldades de aprendizagem, deverá então ser feito o diagnóstico duplo.

A gagueira poderá advir em 98% dos casos, como uma manifestação excessiva de repetições, dentro da normalidade, nas tentativas da criança, para adquirir a linguagem expressiva e a articulação. Ao tornar-se consciente, começa a desenvolver o medo de falar e uma grande ansiedade nas situações que implicam uma fluidez verbal, o que leva a mecanismos compensatórios do ritmo da linguagem para não gaguejar, a evitar situações comunicativas, a rodeios ou circunlóquios verbais ou evitar palavras ou sons; além disso, aparecem movimentos corporais ante a falta de expressão verbal, como piscar, tiques, tremores, e outros. Surge dificuldades sociais, afetivas, com implicações na personalidade em aspectos como a auto-confiança e a auto-estima. Poderão desenvolver-se na criança, sentimentos de solidão, incompreensão, condutas irônicas, anti-sociais, agressivas, antipáticas e mal-educadas, não pode escutar enquanto escreve, necessita de mais tempo para terminar o trabalho, trabalha mais corretamente o quadro do que no papel, produz trabalhos sujos, com rasuras, em vez de apagar, tem ineficácia no uso do lápis, escreve com os olhos muito próximo do papel, chega muito cedo ou muito tarde à aula, acredita que nem o maior esforço irá levá-la ao êxito, opõe-se ou rechaça ajuda, não capta os códigos sociais e outros. Porém não devemos tirar conclusões apressadas, frente a complexidade dos dados, pois, só a freqüência, a investigação clínica e preventiva é que poderá diagnosticar com segurança a TDAH.

Os educadores se sentem muito incomodados com as crianças hiperativas, pois estas não dão oportunidade de ensinar o que lhes parece importante, além do tumulto nas relações, na convivência com os colegas em sala de aula.

Esta complexidade de situações, bem como a dificuldade na concentração e na atenção, nos direciona a uma atuação multidisciplinar com o psicólogo, psicomotricista, psicopedagogo, psicanalista e outros.

Não podemos nos esquecer do que (Bossa, 2000, p 23) “... a aprendizagem, bem como as leis que regem esse processo: as influências afetivas e as representações inconscientes que o acompanham, o que pode comprometê-lo e o que pode favorecê-lo. É preciso, também, que o psicopedagogo saiba o que é ensinar e o que é aprender; como interferem os sistemas e métodos educativos; os problemas estruturais que intervêm no surgimento dos transtornos de aprendizagem e no processo escolar”.

Ainda na tentativa de compreender convenientemente o comportamento da criança hiperativa, não podemos esquecer a relação que existe entre a hiperatividade e o ambiente, isto é, a criança agitada aumenta ou diminui sua inquietação de acordo com as circunstâncias do seu momento. Tarefas e atividades sedentárias, ou muito distantes de seus interesses pessoais, tendem a exacerbar a agitação. Se não entendermos a hiperatividade como um distúrbios de interação, dificilmente encontraremos os meios de evitar suas conseqüências.

Estas crianças, merecem uma parte significativa da nossa paciência e criatividade. “É também injusto dizer que uma criança desatenta nunca planeja uma ação ou que uma criança agitada nunca ficará sentada. A hiperatividade é melhor descrita como provocada por problemas que resultam da falta de consistência do que da inabilidade. A hiperatividade leva a um desempenho incompatível. Em uma dada situação, pode, a criança, prestar atenção, mesmo que alguns minutos depois, ela se distraia num minuto a criança pode estar sentada, escutando o professor, e, não obstante, momentos depois, qualquer coisa insignificante é capaz de distraí-la (Shettini, 1997, p. 108)

“O caráter preventivo permanece aí, uma vez que, ao eliminarmos um transtorno, estamos prevenindo o aparecimento de outros”. (Bossa, 2000, p. 23)

os sentimentos regulam e estimulam a formação e a evocação de memórias e atenção. São eles que provocam a produção e a interação de hormônios, fazendo com que os estímulos nervosos circulem mais nos neurônios. Graças a esse fenômeno cerebral é mais fácil para uma criança lembrar-se do processo de fotossíntese se ligar esse conteúdo de ciências a uma planta que tem em casa ou à árvore em que costuma subir quando está em casa, na rua, na praça ou na escola. Sair do concreto faz como se fossem fichas de armazenamento, facilitando a consulta. Quanto mais caminhos levarem a elas, mais fácil será o resgate, por isso uma imagem simbólica – associa conceitos, formas, palavras, sons.

Algumas lembranças ficam escondidas porque estamos expostos a mais informações do que conseguimos guardar. Aparentemente perdidas elas ficam num lugar do cérebro chamado inconsciente. Ninguém sabe explicar exatamente por que, mas elas voltam à consciência sem que o indivíduo controle. Pesquisas mostram que isso ocorre em alguma circunstância especial, quando algum fato ou informação evoca lembranças que se julgavam perdidas.

O homem é um na sua complexidade e múltiplo na sua unidade. As dimensões afetiva/desiderativa, racional, a relacional contextual e a relacional interpessoal se articulam e complementam-se, numa dinâmica dialética de interação na construção do ser cognoscente.

“A vida cotidiana é um aprendizado continuo, uma práxis que se encaminha para a transformação. É na práxis que o homem gerencia sua vida, se transforma e modifica o mundo. Na ação transformadora vive sua história e cria perspectivas para o amanhã. (cit Bortolanza, 2002, p.31).

Giroux (1997, 28), as escolas são lugares públicos onde os estudantes aprendem o conhecimento e as habilidades necessárias para viver uma democracia autêntica”. Aprender é correr riscos e provocar transformações sociais; é organizar-se e lutar é reentender o conhecimento para criar uma sociedade mais avançada, que valorize o desenvolvimento humano e as possibilidades de superar as limitações tecnocráticas da educação e as confusões criadas por pensamentos que legitimam uma ideologia cultural, econômica e humana de insucesso escolar.

Saber como os diferentes indivíduos aprendem, como é produzido o conhecimento e como se desenvolve, garante o compromisso com a verdade, com a ética e com os interesses dos cidadãos, alunos.

O sujeito deve ser visto de forma póspectiva , reconhecendo seu saber, seu saber – fazer, suas condições subjetivas e relacionais entre a família, a escola e a sociedade, porém propondo um atendimento não excludente com ação clínica e preventiva, voltada para o desenvolvimento, para as possibilidades do hoje, para a felicidade do amanhã, para o sucesso do educando quer individual ou em grupo, mas voltado a uma ação holística, do ser total, frente ao seu hoje.

“O diagnóstico não completa o olhar interpretativo num diagnóstico: todo o processo terapêutico é também diagnóstico”. (cit Bossa, 2000, p 29). O foco de atuação do Psicopedagogo não só valoriza o espaço físico, onde ocorre o trabalho, mas também o espaço epistemológico que especialmente o vislumbra , frente a lugar de atividade e o modo de abordar o seu objeto de estudo.

Portanto há de considerar-se o trabalho do psicopedagogo na área clínica, preventiva e teórica, numa articulação e complementaridade, que previne o fracasso, quer seja escolar, profissional, pessoal e outros; visando proposições de novas possibilidades de ação, que melhorarão a prática pedagógica nas escolas, e contribuirá na construção do ser que polariza uma pluridimencionalidade, no cerne de seu próprio interesse, de sua própria evolução.

“A escola é ... o lugar onde se faz amigos, não se trata só de prédios, salas, quadros, programas, horários, conceitos... Escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima. O diretor é gente, o coordenador é gente, o professor é gente, o aluno é gente, cada funcionário é gente. E a escola será cada vez melhor na medida em que cada um se comporte como colega, amigo, irmão. Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados”. Nada de conviver com as pessoas e depois descobrir que não tem amizade a ninguém, nada de ser como um tijolo que forma a parede, indiferente, frio, só. Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar, é também criar laços de amizade, é criar ambiente de camaradagem, é conviver, é se amarrar nela’! Ora, é lógico... numa escola assim vai ser fácil estudar, trabalhar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz. (cit wwwrevistanovaescola).

2. HIPÓTESE DE TRABALHO
Tendo como noção de como ocorre o desenvolvimento da criança e da relação que ela estabelece com os pais e a escola, pudemos alinhar alguns critérios e princípios sobre os quais se apoiam nossa hipótese de trabalho.

Ao falarmos de desenvolvimento, estamos nos referindo a conquistas da evolução pessoal, ligadas ao processo de aprendizagem. Entram aí então: a experiência pessoal da criança com a realidade interna e externa; o contato com as outras pessoas, bem como tudo o que lhe é ensinado; os referenciais que lhe oferecemos e que ela absorve de acordo com a sua capacidade individual de percepção, nos dando uma visão ampla do progresso humano: genético, hereditário, social, relacional, afetivo, econômico, cognitivo e outros.

É a educação que vai possibilitar formas mais aperfeiçoadas ou limitadas de vida para a criança e, consequentemente para o adulto. Está nas mãos do educador, dos pais e da escola boa parte daquilo que uma pessoa poderá ser.

A doutrina freudiana nos ensina que as experiências da primeira infância nos indicam o caminho da auto-estima, bem como da percepção de nós mesmos em relação aos outros. Os primeiros anos são fundamentais para o prosseguimento seguro na vida.

Há momentos que o compasso na aprendizagem aparece de forma conturbada ou distorcida, tumultuando o comportamento infantil e pode ser confundido com patologias.

O ambiente é para a criança o campo em que se processará e se aperfeiçoará seu potencial, propiciando desse modo condições para a transformação das capacidades em habilidades. Todo desenvolvimento é possível graças ao ambiente físico, fisiológico e psicológico, além do externo (tudo o que faz parte da realidade objetiva).

Se pensarmos na atuação dos pais e professores, identificaremos uma verdade simples e de alta relevância: o processo educacional é responsável por uma parte considerável da forma que cada pessoa dará à sua vida. Na prática, o desenvolvimento está, na sua maior parte, nas mãos daqueles que servem de referenciais para a vida da criança. Para os pais e professores não basta ensinar é preciso que vivam as verdades que ensinam, para que as crianças comprovem não só a validade do ensinamento, mas para que vejam também o valor prático do que está aprendendo. A informação, certamente dificultará o aproveitamento mais abrangente do que se aprende.

Quando fala-se sobre a criança na sua relação com o ambiente (e aqui ênfase à sua família e à sua escola) quer se acentuar a ação, a atividade. Sendo esta ação (atividade) entendido como o movimento que dá sentido à vida, aquela que se produz no âmbito da individualidade, na intimidade de cada um, mas também nas relações com o mundo. Restringindo-se a direção a direção a ela imposta pelo indivíduo, não é, simplesmente, produto da genética ou da hereditariedade; ela nasce das interações entre sujeito e objeto e dos modelos e referenciais de que dispõe. Isso quer parecer que as ações da criança são inspiradas no seu contexto ambiental, sobretudo no comportamento das pessoas que a cercam.

Baseando-se nesta constatação, podemos dizer que as crianças acentuam ou diminuem seu interesse por atividades intelectuais ou buscam caminhos destruidores não necessariamente, por deficiência de personalidade, mas como alternativa para fugir de modelos que foram confusos ou desestimuladores para elas.

A tecnologia tem dado excelente contribuição aos processos de aprendizagem, mas não substitui a presença corporal como base do desenvolvimento afetivo-social. É por isso que família e escola se completam para propiciar as condições de aprendizagem no seu sentido mais abrangente e profundo, bem como as nuanças da nossa sociedade econômica e cultural.

As diferenças individuais não são apenas corporais ou intelectuais, são afetivas, psicológicas, sociais, econômicas e outros. As formas de interpretar e sentir o mundo e as pessoas são extremamente individuais e únicas. É verdade que há semelhanças entre as pessoas o que , de certa forma, acentua as diferenças. No entanto são essas diferenças que compõem seu patrimônio pessoal e podem ser aprofundadas com maios ou menor grau de sofrimento à medida que a criança prossegue em sua caminhada de desenvolvimento. Dificuldades podem ocorrer durante sua gestação, nas experiências do nascimento ou nos primeiros anos de vida, na presença do outro, nas relações com o novo, nas experiências escolares, com os caminhos da aprendizagem, no processo dinâmico e dialético de transformação do sujeito, em constante mutação interna e externa.

A experiência com crianças, revela que, as tarefas que exigem movimento corporal, vão num crescente em complexidade, estruturando a ação infantil e o seu pensamento, quando estiver pronta para determinada atividade a criança a realizará. Portanto o domínio do corpo em movimento é um componente progressivo para a autonomia cognitiva e afetiva.

O movimento construirá a expressão gráfica, verbal e funcional do processo de desenvolvimento humano.

O racismo crítico, reflexivo, vai se estruturando na medida que o sujeito age no mundo e estabelece conexões sociais, afetivas e históricas, mediadas pela cultura, numa constante mutação.

As emoções são o instrumento por excelência para uma criança revelar-se como pessoa. Se ela tem dificuldade de se manifestar, de se comunicar através da expressão clara do seu pensamento, tem, em compensação, nas emoções, uma forma de alta eficiência para dar-se a conhecer.

A educação familiar pode estimular o amadurecimento, como pode bloqueá-lo, bem como a escola com sua educação formal, acadêmica.

Muitas vezes a escola interpreta como indisciplina, aquilo que na realidade significa expressão, necessidade de comunicar-se com o grupo, de construir sua liderança, tentando conviver em grupo.

A aprendizagem é dinâmica e requer do aprendiz exercitação do compreendido para que se processe a modificação do comportamento como resultante da incorporação de novas experiências que, por sua vez cria condições favoráveis de evolução.

Grande parte das crianças hiperativas tem dificuldades para estudar e não para aprender. Como ensinar alguma coisa à criança sem a prepararmos para receber o ensinamento e transformá-lo em uma experiência incorporada à sua vida pessoal? As dificuldades seriam reduzidas ou desapareceriam se ensinasse a criança a estudar. Há pré-condições, processos, métodos que dará os instrumentos necessários e eficientes para tal sujeito. Melhorar a motivação e criar condições favoráveis à aceitação dos desafios a aprendizagens mais complexas, sem dúvida pode abrir o caminho para a criança começar a perceber sua relação com o estudo, com uma possibilidade, sem estabelecer mecanismos de resistência ou atropelar suas motivações e interesses. Então ela percebe que aprende com atividades e organiza sua forma própria de aprender.

Hiperatividade dificulta a concentração da atenção. Dessa forma o hiperativo, que apresenta comportamento conturbado, sofre ainda transtornos da aprendizagem resultantes da conseqüente dispersão da atenção.

Por haver necessidade de mais tranqüilidade para aprender, a atuação diversificada de ajuda, é importantíssimo e a avaliação diagnóstica de cada caso é crucial.

A criança hiperativa tem uma relação muito forte com o ambiente, portanto tarefas sedentárias ou muito distantes de seus interesses pessoais tendem exacerbar a agitação. Se não entendermos a hiperatividade como um distúrbio de interação, dificilmente encontraremos os meios de evitar suas conseqüências.

Essas crianças merecem paciência, criatividade, precisa de uma orientação adequada, sobretudo no ambiente da sala de aula, para que consiga o rendimento esperado e consentâneo com sua capacidade de aprender. Se não conseguir poderá isolar-se ou passar a ter problemas com a concentração da atenção. Outras poderão assumir um comportamento oposicionista de desafio e desestruturar o grupo em que estiver.

Para caracterizar um quadro de hiperatividade é necessário um diagnóstico rigoroso, com comportamentos constantes de agitação e distração por motivos diversificados, dificuldade de ficar sentada por tempo prolongado ou para aguardar sua vez no grupo. Deixa sistematicamente tarefas inacabadas, fala incessantemente e compulsivamente, interrompe os outros constantemente e tem dificuldade para escutar o que lhe dizem. Não confundir com características nas crianças de seis anos, por exemplo, que passa por um período de transição normal do desenvolvimento emocional. As dificuldades de interação social é clara e notória; são agressivas, tem baixa popularidade, não mantém amizade. Tem sido sugerido que a criança hiperativa precisa apresentar ou desenvolver, no mínimo três habilidades bem-sucedidas socialmente: participar de jogos com regras, fazer solicitações verbais adequadas e a capacidade de elogiar os outros. No plano terapêutico ensinar um modelo lógico de identificar e solucionar problemas é essencial para sucesso da criança hiperativa.

“A investigação diagnóstica envolve a leitura de um processo complexo, onde todas as ambigüidades de atribuições de sentido a uma série de manifestações conscientes e inconscientes as fazem presentes. Interjogam aí o pessoal, o familiar atual e passado, o sociocultural, o educacional, a aprendizagem sistemática, nos leva então a uma linguagem de tratamento e prevenção, articulando-se com a construção de um saber prático-teórico” (Bossa, 2000, 29).

Outro campo também necessário de investigação se dá ao espaço físico onde se dá o trabalho, mas especialmente ao espaço epistemológico.

3. RELEVÂNCIA DA PESQUISA
A forma de abordar o objeto de estudo embasará diretrizes de atuação, quer sejam clínicas, preventivas ou teóricas, bem como o aconselhamento dos pais e a interferência no processo ensino-aprendizagem na escola.

Propõe uma mudança de aprendizagem do sujeito para um novo desenvolvimento das suas potencialidades efetivamente na vivência de atividades voltadas para a ação preventiva, institucional e familiar, adotando uma visão alternativa de melhora do processo ensino-aprendizagem.

A orientação dos estudos será organizado com a elaboração de formas de estudo, com estratégias de apropriação de conteúdos mais grupais e dinâmicos, num contexto de diálogo sobre o pensar e o construir; onde o ato de jogar, brincar, dramatizar, correr, pular, saltar, atenda as necessidades e interesses do aluno, numa significação mais complexa do conhecimento em particular.

O papel de acompanhar a criança, a família, o professor e a escola, fornecerá dados sistemáticos para retroalimentar a proposta e ousar novos caminhos para melhoria da prática pedagógica e o avanço com sucesso dos hiperativos.

E ainda mediará um referencial teórico, para ampliar a questão sob a ótica teórica, terapêutica e preventiva.

O exercício na área educativa permeará todo processo epistemológico problemático e suas variantes psicológicas, pedagógicas, neuropsicológicas, psicalíticas, e outras, que deságuam na construção do EU cognoscente, na fronteira entre o igual e o diferente.

Vale ressaltar que a abordagem de uma escola, professor, criança em particular, desobstruirá na nossa sociedade uma postura de fracasso escolar e lançará novos rumos para uma análise mais cuidadosa dos fatores que podem intervir no processo aprendizagem e no processo de ensino, construindo uma postura multidisciplinar em confronto com a realidade em mudança constante.

Elucidar confusões teórico-práticas no diagnóstico e terapêutica as crianças hiperativas, desmistificando o insucesso, no sucesso da aprendizagem.

4. OBJETIVOS

Geral:
Desenvolver o sujeito hiperativo na sua aprendizagem, frente às suas possibilidades e interesses, numa dinâmica de sucesso.

Específicos:
- Identificar e solucionar problemas componentes da criança hiperativa numa terapêutica de sucesso preventivo, junto aos pais e a escola.
- Construir três habilidade socialmente bem-sucedidas nas crianças hiperativas: participar de jogos com regras, fazer solicitações verbais adequadas e desenvolver a capacidade de elogiar os outros.

5 . METODOLOGIA E MATERIAIS:
Conhecer os fundamentos da Psicopedagogia, refletindo nas suas bases teóricas, á luz da Pedagogia e da Psicologia, bem como de outras áreas afins para aprender o fenômeno envolvido.

“Essas duas áreas não são suficientes para aprender o objeto de estudo da Psicopedagogia – o processo de aprendizagem e suas variáveis – e nortear a sua prática. Dessa forma, recorre-se a outras áreas, como a Filosofia, a Neurologia, a Sociologia, a Lingüística e a Psicanálise, no sentido de alcançar a compreensão desse processo. (Bossa, 2000, p. 25).

Procura-se entender o sujeito total, com suas diferenças, numa articulação e complementariedade afetiva, cognoscientiva , histórica e social, carregado por seu modo de atuar no mundo, de operar, enquanto ideologia que instaura a operatividade ou a alienação inoperante.

“A psicopedagogia terapêutica é um campo de conhecimento relativamente novo que surgiu na fronteira entre a Pedagogia e a Psicologia”. (Bossa, 2000, p 25-26).

O foco será investido numa pesquisa de campo por amostragem de uma Escola Pública da Rede Municipal do Recife, Escola Professor Júlio de Oliveira, na turma de 1º ano do 1º ciclo, correspondente a alfabetização regular.

Será elaborado uma entrevista com os professores do 1º ano do 1º ciclo, com os pais e com as crianças, para realização do diagnóstico, bem como observação das crianças na sala de aula, no recreio e em casa.

Mostrar-se-á uma proposta experimental para subsidiar o trabalho o trabalho docente e discente, em atividades, interesses e necessidades a serem desenvolvidas com ajuda do coordenador pedagógico.

Com base nos dados do aluno, do professor, da família e da escola, o diagnóstico preventivo terapêutico será proposto para o sucesso da aprendizagem nas crianças hiperativas comprovadamente.

As limitações nesta metodologia se faz presente, no acompanhamento dos pais; na participação e envolvimento do professor bem como na mudança metodológica;

No processo de mudança do aluno e na incorporação das três condutas sociais para o sucesso do discente hiperativo socialmente.

Todo processo deverá ser registrado e ficha de acompanhamento individual do aluno; como também as entrevistas realizadas com os pais e professores; o desempenho do aluno na sala de aula, frente os desafios propostos em atividades de grupo e individual, que serão expostos em gráficos e tabelas para avaliação e redirecionamento do processo terapêutico e de sucesso na aprendizagem.

O material a ser utilizado será o humano, teórico, prático, a análise da situação física do prédio escolar, e do em torno da escola e das famílias elencadas .

Será necessário material de expediente leve, colorido, personalizado, versátil e de fácil transporte para montagem das entrevistas, fichas de acompanhamento, montagem de gráficos e tabelas, atividades propostas para aprendizagem de acordo com interesse e necessidade da criança hiperativa. Sala de aula adequada, com dinâmica, intrinsecamente motivadora, na forma, estrutura e composição apropriada ao hiperativo, sala para encontro com pais e professores para reflexão sobre o processo terapêutico preventivo e de ensino-aprendizagem do aluno; e sala para entrevista e observação do aluno hiperativo. Ficha síntese do processo e encaminhamentos futuros.

As atividades montadas para possibilitar avanços na aprendizagem do hiperativo devem estabelecer relações entre os novos conteúdos e os aprendizados anteriores, para que a informação seja evocada mais facilmente pelo reconhecimento; criar situações que envolvam elaborações mentais com sons, imagens, fantasias, significados e (por que não) humor permitindo que várias áreas do cérebro trabalhem simultaneamente no resgate de informações e estímulo da atenção; utilização de gráficos, diagramas, tabelas, cronogramas para classificar as informações fazendo com que o cérebro tenha mais facilidade para armazená-las e, portanto, resgate-as com mais facilidade; reservar os últimos minutos a aula para conversar sobre o que se estudo, que conhecimento novo aprendeu, assim eles fazem uma leitura do que aprenderam; usar brincadeiras, dramatizações e jogos para levar à emoção favorecendo a aprendizagem. Isso só funciona se houver relação entre o conteúdo e a situação lúdica. Explorar as atividades com dinâmica visual e oral, utilizando material concreto para estimular o raciocínio abstrato. Desenvolver técnicas de sensibilização e relaxação, fortalecendo a atenção e explorando tarefas de manipulação intracorporal e extracorporal, com relevância para o processamento de informações, desde a ação até a abstração e generalização, no controle da postura e do movimento corporal, numa sinergia de interação mente e corpo, corpo e mente, objeto-ação-pensamento e vice-versa.

O estudo do comportamento humano e, por conseguinte, do desenvolvimento psiconeurológico exige cada vez mais a integração de dados evolutivos filogenéticos, ontogenéticos, sociogenéticos e microgenéticos coerentes, numa dialética de complementariedade e articulação desde ação, até a simbolização, mergulhada num envolvimento emocional, moral e semiótico cada vez mais complexo.

6. RESULTADOS ESPERADOS
As relações cérebro-comportamento sofre influências sociais, políticas, filosóficas, econômicas, históricas, emocionais, culturais, numa perspectiva holística que envolve o trabalho de sucesso na aprendizagem das crianças hiperativas.

Os estudos teóricos e práticos desta pesquisa maximizará os potenciais da aprendizagem numa dimensão terapêutica-diagnóstica preventiva e multidisciplinar.

Ao longo do processo, damos conta que cada nível de organização possui propriedades únicas de estruturação e de comportamento, que por sua vez são dependentes das próprias propriedades dos elementos constituintes, elementos esses que só aparecem na evolução, quando combinados em novos sistemas.

O conhecimento dos processos de aprendizagem na criança hiperativa, podem ser de uma importância significativa para melhor organizar-se, estruturar-se e provavelmente incluir-se ativamente na sociedade como cidadão autônomo e integrado, na busca de realizações, felicidade e sucesso, em meio ao foco do ambiente interno e externo do sujeito cognoscente, como também a análise da estrutura de funcionamento que origina os comportamentos.

O fracasso escolar dos hiperativos deve-se à falta de motivação à instrução inadequada (dispedagogia, desvantagens culturais, sociais, econômicas, legitimação de rótulos, pouca pesquisa na área e redução do impacto político nas esferas sociais do país.

O sistema família, escola, fatores sociais, econômicos e culturais, afetivos e psicológicos, podem desordenar os processos de aprendizagem, reduzindo a complexidade da questão num rótulo, potencializado pela conduta imperativa, agitada e hiperativa.

Garcia (1998, p. 76), “Os transtornos hiperativos aparece em 98% das crianças entre os dois e os sete anos, porém apenas de 3 a 5% continuam após esta idade, e sem características de lesões cerebrais. Um percentual de 20% dessas crianças hiperativas são superdotadas, 70% apresentam quoeficiente de inteligência dentro dos padrões da normalidade”.

A acumulação de frustrações, de ansiedades, de agressões, de depressões e de insucessos é atividade por um sistema escolar que insiste na maturação precoce.

A verdadeira escola deve nortear-se pelo sentimento, maturidade estrutural com pré-aptidões para aprendizagem escolar, amor, segurança, apoio da família, confiança, encorajamento e sucesso insubstituíveis à personalidade da criança e como missão do ensino preventivo e revelador do desenvolvimento biopsicossocial das ações e das condutas que envolvem o processo de desenvolvimento humano.

É interessante notar que a falta de êxito escolar é um passaporte par a delinqüência e para as condutas sócio patológicas. O êxito escolar é um sinal de higiene mental; êxito na escola quer dizer, quase sempre, êxito na vida social. A criança é um ser com uma história dentro de outra história, e para isso o professor deve munir-se de meios que permitam observá-la no seu “holos”.

Para melhorar os produtos da aprendizagem, aquilo que no fundo conta para a escola, é necessário que se resolva o “caos interno”, onde os desequilíbrios emocionais assumem papel de relevante importância nos processos psicológicos da aprendizagem.

A criança hiperativa corre o risco de se tornar um adulto desajustado, desmotivado, desempregado, rebelde, apático, não identificado, etc., independentemente de no seio emergirem valores como: Einstein (só aos 4 anos começa a falar e só aos sete inicia a leitura), Newton (considerado aluno de fracos sucessos), Beethoven (o professor de música chegou a dizer-lhe que como compositor não havia hipótese), Abraham Licoln (desprovido da carreira militar), Winston Churchill (repetente na escola primária) , Thomas Edison (seus professores consideravam-no estúpido para aprender o que quer que fosse), Walt Disney (seu editor chegou a confessar que ele não tinha boas idéias), etc. Quantos desses valores humanos se continuarão a perder se não se modificar a função da escola e a problemática do insucesso escolar?

7. CRONOGRAMA FÍSICO DE ATIVIDADES DE ESTUDOS E PESQUISAS






2003JunhoJulho

Agosto

Setembro

Outubro

Novembro

Dezembro

2004

Janeiro
ATIVIDADEPesquisa Bibliográfica" "

" "

Visita a Escola M. Professor Júlio de Oliveira, para conquista do espaço de trabalho possível.

Reunião com os professores

Reunião com os pais

Apresentação da proposta de trabalho com criança hiperativa

Levantamento das condições físicas do prédio escolar

- Confecção de instrumento para entrevista com Professores

- Criação de perguntas para entrevista com os pais

- Formação e roteiro para observação das crianças em sala de aula, recreio e em casa.

8. BIBLIOGRAFIA

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Dificuldades de Aprendizagem: um desafio para o educador

by Francisco on quarta-feira, 22 de janeiro de 2003

Arleide Santana Vieira

Indagar, questionar, problematizar... São palavras sempre presentes na vida do educador. Estamos sempre indagando e questionando sobre as coisas que acontecem no cotidiano escolar. E, na Escola Pública, muitas dessas indagações parecem que ficam no ar: Por que o aluno não aprende apesar de todo esforço do professor? Como explicar o fracasso escolar? Como ajudar aquele aluno que já repetiu a 1ª série várias vezes e ainda não aprendeu a ler?

Se por um lado temos alunos e suas possíveis dificuldades, por outro temos um contexto escolar que precisa ser alterado, ou seja, a escola precisa oferecer uma proposta mais estimulante para que a aprendizagem aconteça, favorecendo o avanço desses alunos.

Mas, como transformar esses alunos ditos fracassados em alunos motivados, ativos, produtivos, com um bom rendimento escolar? É um desafio para a escola e de modo especial para os educadores.

O aluno precisa ver sentido no que aprende na escola. Os conteúdos devem fazer parte da sua vivência, do seu cotidiano, da sua realidade. Deve haver uma ligação entre o que a escola “dita” e a realidade do aluno, caso contrário não terá significado algum.

Segundo Paulo Freire (1990, p.8) “aprender a ler e escrever é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.

Como uma criança pode ser alfabetizada num contexto escolar que exclui a realidade que ela vive? Da mesma forma: como aprender a matemática da escola sem que ela seja contextualizada, de modo que faça sentido para o aluno ou que ele entenda que é a mesma matemática que ele usa no seu cotidiano?

Terezinha Carraher, no seu livro “Na vida dez, na escola zero”(2001), destaca que, muitas vezes, os alunos não aprendem matemática na escola mas usam a matemática no seu dia-a-dia com sucesso. O livro analisa situações em que feirantes, cambistas, mestres-de-obras, entre outros, que pouco ou nunca freqüentaram a escola, conseguem desenvolver estratégias que os ajudem a resolver problemas matemáticos. Daí vem a conclusão de que existe um contraste entre a matemática de rua e a da escola, cabendo ao professor aproximar as duas, ou seja, sistematizar seus conteúdos de forma que o aluno compreenda, que ele perceba que a matemática não é um “bicho de sete cabeças”, mas faz parte do seu cotidiano, deixando de ser memorização de coisas sem sentido.

Não só na matemática mas em todas as outras disciplinas, o professor deve está preocupado em oferecer condições para que o aluno possa fazer um paralelo entre o que está aprendendo e a sua realidade e tal qual Rubem Alves(1981, p.89), desejar “criar condições para que cada indivíduo atualize todas as suas potencialidades”. E nosso aluno da Escola Pública tem um potencial muito grande. O que está faltando é que o educador acredite nas possibilidades de avanço desse aluno, estimulando, desenvolvendo o espírito de persistência, os sentimentos de confiança e auto-estima, respeitando as diferenças individuais de cada aluno, oferecendo ferramentas para que o aluno possa ampliar sua visão do mundo e, conseqüentemente, possa participar da vida social e da construção de uma realidade que garanta uma melhoria de vida. Que desafio! E que responsabilidade a de fazer diferença na história de vida dos alunos.

Segundo Cláudia Davis(1991), no ambiente escolar a criança sofre uma transformação radical em sua forma de pensar. Antes de chegar à escola, os conhecimentos são assimilados de modo espontâneo, a partir da experiência direta da criança. Quando ela chega à escola, existe uma intenção prévia de organizar situações que propiciem o aprimoramento dos processos de pensamento e da própria capacidade de aprender. O papel do educador nesse processo é fundamental. Por isso é importante que ele conheça as teorias de aprendizagem e tenha uma posição clara e definida sobre sua prática pedagógica. No dia-a-dia de sala de aula ele planeja, direciona e avalia a sua ação. Comete alguns erros, reflete sobre eles e enfrenta a possibilidade de corrigi-los. E ao longo desse processo não só o aluno aprende e avança mas o próprio professor tem a oportunidade de melhorar sua prática pedagógica.

Não existem fórmulas prontas para vencermos as dificuldades de aprendizagem dos nossos alunos. Até porque essas dificuldades muitas vezes são um sintoma de que algo não vai bem e é tarefa do educador identificar o que não vai bem e ajudar o aluno a superar o problema. Mas, quando o educador pára no tempo, não se prepara, não busca uma melhor formação, quando ano após ano usa o mesmo planejamento para todas as suas turmas, não se envolve com o aluno e só se preocupa em “jogar” os conteúdos da sua disciplina, ele está empurrando seus alunos para o fracasso escolar. Mesmo o educador mais experiente precisa planejar e avaliar constantemente o seu trabalho, mas acima de tudo, ele deve ter consciência do seu papel, da sua importância como formador de opiniões e que seu trabalho não é somente um “ganha pão”, mas é uma verdadeira vocação. E ele estará no caminho para descobrir suas próprias estratégias para vencer as dificuldades de aprendizagem de seus alunos. Mas quando todas as estratégias falham, ele pode contar com o apoio do psicopedagogo que vai investigar as causas dessas dificuldades e trabalhar com o aluno com o objetivo de vencê-las.

Referências bibliográficas:


  • FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo, Ed. Cortez, 1990.

  • ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo. Ed. Cortez, 1981.

  • CARRAHER, Terezinha. Na vida dez, na escola zero. São Paulo. Ed. Cortez, 2001.

  • DAVIS, Cláudia. Psicologia na Educação. São Paulo, Ed. Cortez, 1991.


* Arleide Santana Vieira é aluna do Curso de Especialização em Psicopedagogia da Universidade Salgado de Oliveira, Recife/PE.

A Prática Pedagógica na Construção do Ser Humano

by Francisco on domingo, 15 de dezembro de 2002

Aldacir Santos de Sousa

A pedagogia tem um grande valor entre a humanidade, devido à sua intensa relação com o desenvolvimento do indivíduo, papel é esse que está intimamente ligado à construção de uma sociedade criativa e respeitadora.

Piaget sempre bateu duro na escola tradicional, defendeu práticas baseadas em jogos, pesquisas e trabalhos em grupos, concebe a criança como um ser capaz, ativo, atento e que constantemente cria hipóteses sobre seu ambiente.

Todo professor deve pensar no aluno como nos próprios filhos. É fundamental ter muito carinho, dedicação por todos estudantes sem exceção. O papel do mestre é intuir o que o aluno espera, deseja e fazer aquilo que estiver ao seu alcance para garantir o sucesso da aprendizagem. Utilizar diversas dinâmicas, uso de músicas, pesquisas, excursões, jogos estratégias que envolvam e mobilizem toda a turma na busca de novos conhecimentos.Nós professores somos privilegiados porque só nós temos o prazer de ver diariamente aquele brilho nos olhos de uma criança quando descobre o mundo. Segundo Vygotsky (1930) desenvolvimento e aprendizagem são processos independentes que interagem, afetando-se mutuamente; aprendizagem causa desenvolvimento e vice- versa. O que é desenvolvimento? O que é aprendizagem?

Para Elisabete da Assunção José e Maria Teresa Coelho(1991) desenvolvimento é um termo bastante amplo, é um processo ordenado e contínuo que principia com a própria vida. É comum as pessoas restringirem o conceito de aprendizagem somente aos fenômenos que ocorrem na escola. O termo tem um sentido mais amplo abrange os hábitos que formamos, enfim os aspectos de nossa vida e a assimilação de valores culturais.Muitos professores vêem cenas agressivas todos os dias dentro de suas classes.Em muitos casos estão reproduzindo cenas reais. Segundo Alia Barrios (2002) é difícil para o professor encontrar atitudes, mas é possível achar formas de incentivar o aluno a brincar de guerra ou de luta. Não adianta esconder esse tipo de brincadeira, pois ajuda a refletir sobre a violência de maneira transformadora. O aluno precisa ser capaz de reconhecer as situações em que aplicará seu conhecimento ou habilidade.

No Brasil há um crescente interesse em aprimorar a prática pedagógica, procurando estabelecer um atendimento de qualidade para as crianças e famílias, exemplo o “Dia Da Família Na Escola”,criado em 2001, com objetivo de integrar a família as diversas atividades escolares como: recreações, oficinas,palestras e outros.Esse é um dos diversos instrumentos que integra todos ao processo aprendizagem, traz conseqüências positivas tanto para o desenvolvimento do educando, como para o bem estar da família.É necessário que continue fazendo essa parceria,escola x família caminhando de mãos dadas. O professor não faz nada sozinho e a família também.



Como avaliar o aluno?

Para Mere Abramowic (2001) avaliação que durante décadas foi instrumento ameaçador e autoritário está mudando porém continua sendo um dos grandes nós da educação. Hoje para muitos educadores a nota está sendo uma representação simplificada de um processo de aprendizagem. O que vale é o desenvolvimento do aluno em relação a si próprio e aos objetivos propostos os quais são baseados no contexto em que ele está inserido. O professor planeja faz suas anotações porém isto não é tudo; os alunos escrevem seus relatórios individuais, os quais são aproveitados como norte e utilizados como conteúdos prévios.Daí a criança se sente interagida. Segundo Vygotsky, o desenvolvimento é resultado da interação da criança com o meio social em que está inserida.Com seu conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (Z D P) ele nos faz perceber que a avaliação é um processo contínuo, não um momento isolado ao final do processo aprendizagem.O Mais importante não é a aprendizagem que já ocorreu e sim aquela que está acontecendo.

Referências Bibliográficas

. OLIVEIRA, Cláudia Lávis Zilma. Psicologia na Educação. Ed.Cortez, Impresso no Brasil, Agosto 1991
. SOUZA, João Francisco A Educação Escolar
. Revista Escola. Edições:Abril 2002/Março 1997
. Revista Construir Notícias. Edição: Junho 2002
. José, Elizabete da Assunção e Coelho, Maria Teresa. Problemas de Aprendizagem. Ática. 1991 3ª ed.

* Aldacir Santos de Sousa, aluna do Curso de Especialização em Psicopedagogia da Universidade Salgado de Oliveira, Recife/PE

Do Biopoder à Ética do Cuidado com a Saúde Integral do Homem

by Francisco on quarta-feira, 20 de novembro de 2002

Francisco Antônio de Andrade Filho

“O melhor médico é também um filósofo” [Galeno]

O Sexto Congresso Mundial de Bioética, realizado em Brasília entre 30 de outubro e 03 de novembro do ano passado teve como tema central O Poder e a Injustiça. Trazer para esta discussão a lógica da filosofia em sua interface com a Medicina é contribuir para uma profunda compreensão em torno do poder em sua relação com a ética do cuidado (SIQUEIRA, 2002:89-106) com a saúde integral do homem (LEO, 2002:51-72).

I. Por que uma Filosofia da Medicina? Por que uma atitude de reflexão, hoje, sobre o biopoder?

Na discussão sobre bioética, a temática de equiparação entre o médico e o filósofo, da relação Medicina-filosofia, na integração de seus saberes, pode, talvez, suscitar algum questionamento importante, principalmente, quando, em nossos dias, a evolução dos aparatos médicos é tão grande, que temos, muitas vezes, vontade de superar a facticidade humana e instaurar um reino de utopias, de "preocupações e razões de esperança", no qual, pela ajuda da técnica e do desenvolvimento científico, o homem possa desafiar a morte. Para isso contribuem, sem dúvida, as excentricidades que os meios de comunicação, todos os dias, veiculam, como também um desejo humano de prolongar a existência e superar a doença.

A filosofia, integrada com outros sistemas de conhecimentos humanos em evolução, a Medicina e o Direito, por exemplo, se confronta com novos desafios (JAPIASSU, 1997), “o de pensar-se nos dias de hoje”, de descobrir outras e diversas condições históricas da Globalização, de repensar as drásticas rupturas epistemológicas a serviço da Humanidade.

É o tempo propício de se conceber e de se praticar esta interdisciplinaridade, da Filosofia com estes saberes, entre outros: a habilidade profissional de buscar um outro modo de ver e de pensar as realidades em suas múltiplas dimensões, entre as quais as novas teorias da linguagem de Bioética em sua relação com a Medicina decorrentes dos avanços tecnológicos da inteligência humana.

Este debate inicial se reveste de capital importância, na medida em que a Filosofia tematiza a Bioética como um novo paradigma (HOTTOIS, 1990) do conhecimento. Com essa nova disciplina, o pesquisador recorre às “tecnologias da inteligência” (LEVY, 1998) .

É no ambiente marcado por grandes transformações e processos contraditórios que a Bioética parece nascer como um novo domínio da reflexão e da prática, que toma como seu objeto específico as questões humanas na sua dimensão ética, no âmbito da prática clínica, jurídica ou da investigação científica.

Segundo os jusfilósofos, faz-se necessário lançar mão de regras, normas, leis ou diretrizes a serem seguidas por todo grupo social. A Bioética seria um instrumento fundamental para atingir tal objetivo, principalmente nas questões jurídicas do Direito Internacional e Ambiental. Com base nisso, questões são registradas, tais como: o que é justiça? “Ética é justiça?” Que implicações éticas existem, hoje, na falta de respeito à Ecologia, à Natureza? Destas dimensões, que reflexão se faz sobre a ética do cuidado com a saúde integral do homem? Que relação existe entre o biopoder, produzido pelo “Império” globalizado, e a ética do cuidado com a saúde integral do homem?

Há uma palavra grega, que explica o sentido etimológico da concepção de ética com justiça: “ethos” significa “domicílio”, moradia, o abrigo permanente, o país onde alguém habita, a casa onde se mora, a Universidade Federal de Pernambuco, o Centro de Ciências de Saúde, onde se constrói, pelo trabalho, a felicidade do homem.

No âmbito da “physis”, observa Leonardo Boff (1999: 85), da totalidade sempre igual à Mãe-Natureza, “o ser humano seleciona uma porção da natureza e aí constrói para si uma moradia. Ele não a encontra feita. Deve construí-la e mantê-la permanentemente, como todas as casas. O “ethos” não é algo acabado, redondo. É projeto. Aberto e sempre projetado, em transformação numa nova ética, uma nova justiça, bem que nos permite sentirmo-nos bem em casa. É a coexistência da justiça nas práticas político-culturais no mundo de hoje.

No entanto, não somos os únicos a ter valor ético. Toda natureza é respeitada do ponto de vista da ética. Ética é justiça. Natureza é justiça. Ecologia social ambiental é justiça.

Talvez esse o maior mérito da Bioética em sua relação com o Direito Internacional, (BARBOSA, 2000: 210), do monopólio de um único biopoder imperial (seria o norte-americano?), esse desafio aos estudiosos da Bioética: produzir o princípio da “justiça” e encontrar seu lugar junto aos outros, da “autonomia” e da “beneficiência”. Hoje se percebe a “injustiça social” como “injustiça ecológica” contra o todo natural-cultural humano. É uma grande violência, do terrorismo cultural do “capital global”, sacrificar o capital natural da Terra propugnado por um desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, o princípio da eco-justiça, do respeito à Natureza, do ponto de vista ético-político mundial, é alinhado numa indagação central: como construir uma sociedade bem ordenada e justa, garantindo o equilíbrio entre natureza e produtos tecnocientíficos na atual “aldeia global”? E aqui, onde fica a responsabilidade de ética em pesquisa, na construção do Biodireito (MARTINS-COSTA, 2000: 230) e da Medicina em busca de modelos de respostas para uma nova ética do cuidado com a saúde na “Constituição Política” da Globalização? Seria a produção do conhecimento rumo à fábrica de uma novas teorias e práticas políticas no mundo de hoje? Do biopoder e da ética do cuidado com a saúde humana integrada à Natureza e á cultura na atual sociedade globalizada?

Urge indagar e refletir, elaborar projetos de pesquisa, compreender a Bioética como um novo paradigma da relação entre Ciência e Tecnologia, num confronto com possibilidades e problemas de Filosofia em sua interface com Medicina, de “ordem ontológica” e no modo de existir da pessoa humana e da própria tecitura constitucional-sócio-política da atual sociedade global.

Esse, o provável estatuto epistemológico, aventar a possibilidade de novas teorias do conhecimento neste “tempo global”, questão a ser tratada necessariamente na universidade, desde que esta se veja como o espaço da autonomia e da reflexão compartilhadas.

Com efeito, a camuflada transformação jurídico-cultural e unilateral funciona como sintoma das mudanças da constituição material biopolítica de nossas sociedades. Põe em movimento uma dinâmica ético-política. É peculiar a prática desse “direito global” em que leva ao extremo a coincidência e a universalidade do ético e do jurídico. Na “Aldeia Global” há paz, há garantia de justiça para todos. Ao poder único, do “direito de intervenção”, é dada a força necessária para conduzir “guerras justas” nas fronteiras contra os bárbaros e, no plano interno, contra os rebeldes. Falam de paz e promovem a guerra.

Neste sentido, constrói-se um direito afirmado na produção de uma “nova ordem” que envolve todo o espaço civilizado, ilimitado e universal. Abrange todo o tempo. Suspende a história, passado e futuro para dentro de sua própria ordem ética. Ordem eterna, permanente, necessária.

É sabido que a ordem mundial atual, na busca de uma nova constituição política, é perversa, brutalmente contraditória: apesar de a vida – biosfera (vegetal, animal e humana) – ser o elemento mais precioso do planeta, ela é prejudicada e ameaçada de extinção. A forma mais elevada de vida – a humana – é a mais devastada, terrorizada, implodida, com bilhões de seres morrendo de fome e de doenças curáveis. A Biopolítica do não-trabalho é o maior terrorismo cultural do mundo. Essa guerra é terrorismo global: miséria, degradação, corrupção!

Estamos vivendo a contradição ética mais grave da história. Os horrores da mente humana, na atual “Aldeia Global”, criam políticas e tecnologias responsáveis pelo genocídio da natureza e exclusão do homem do seu ecossistema natural e urbano.

É possível pensar e praticar “o mundo como pode ser: uma outra globalização” (SANTOS, 2000: 20) . Um mundo possível, um outro mundo mediante uma globalização mais humana: projeto de emancipação humana a partir das condições materiais e espirituais da própria globalização. É possível, quando surgirem relações práticas com a produção de bens coletivos, materiais e espirituais em benefício do homem.

Esse princípio da Justiça relacionada com a Natureza conduz a uma maior compreensão da ética do cuidado com a saúde integral do homem (BOFF, 1999:133-156) . “A arte perdida de cuidar” (SIQUEIRA:89-106) desafia, hoje, a “sabedoria médica”. Aponta a capacidade de compreender um problema clínico não em um órgão mas em um ser humano integral. Sugere ao médico de bem utilizar as máquinas com raciocínio clínico. É a ética do cuidado, do aclhimento, da escuta-resposta e da esperança de cura para os que sofrem (LEO, 2002:51-72) .

Na visão cartesiana, o corpo aparecia como uma máquina amiúde necessitada de ser reparada através de tratamentos particulares e intervenções impessoais. Na visão sistêmica, ao contrário, o corpo hoje é visto como um sistema complexo de partes interativas onde o corpo e a mente não são separáveis.

É necessário um novo modelo de empresa terapêutica, uma "medicina de relação", antes da medicina de órgãos, que recupere a totalidade do ser humano e considere o paciente como pessoa na unidade de todas as suas dimensões. É nesta "aliança terapêutica" entre médico e paciente, que pode animar uma nova cultura da saúde que evite a "coisificação" do paciente e a perda da humanidade na arte médica.

Essa (re)humanização da Medicina deve partir de uma revisão crítica da Antropologia médica, de sua educação, “de uma concepção antropológica na qual o ser humano é visto como totalidade integrada” e toda enfermidade é vista “como produto do homem inteiro: corpo, psique, espírito, história, sociedade”.



II. Bioética na iátrica médico-profissional-uma expressão da ética do cuidado com a saúde humana.



1. O que é Bioética na atuação profissional?


Penso ser um objeto de diálogo, nesta palestra de hoje, compreender a Bioética como um novo paradigma da relação entre ciência e tecnologia, no confronto com possibilidades e problemas de "ordem ontológica" (Von Zuben) e no modo de existir da pessoa humana e da própria tecitura social. Ela surge como uma ciência que reflete, discute e almeja atingir um consenso na defesa de valores individuais "ameaçados em decorrência do avanço da ciência e da tecnologia". Segundo Hubert Lepergneur, a bioética "é uma disciplina prática, cujo fim é conseguir o consenso máximo, em matéria de duvidosos desafios na área de saúde humana, para elaborar e implementar normas de ação". Ela, através de pesquisas integradas, análise e discussão de problemas de ordem ontológica, problemáticas e diálogos filosóficos sobre o conceito de pessoa, vai buscar soluções, traçar normas morais, para problemas éticos decorrentes de descobertas científicas. Ela servirá, de um novo paradigma, de modelo, para o funcionamento da atividade científica, com os valores almejados pela sociedade. É o homem que está em jogo em sua convivência social.



2. O que é ética profissional?

Segundo Vaz Lima Lima Vaz (1996), o agir ético do indivíduo, exprime a nossa situação fundamental como seres que habitam a morada do ethos. É a vida do bem em organizações humanas. A vida plenamente humana, “programa pedagógico esse que visa formar o jovem médico, que participa da cidadania, assumindo com plena consciência a recíproca relação entre direitos e deveres”, na qual consiste propriamente a esfera profissional.

Esse mundo humano – ser ético/axiológico não é uma dádiva da natureza. É conquista cultural. Destino das sociedades institucionalizadas, em sua dimensão ético-profissional, a de enveredarem pelos obscuros caminhos da cidade sem lei.

Aqui, penso poder considerar o Código de Ética Médica como uma expressão da ética do cuidado para com a saúde integral do homem. Jamais a letra fria, morta, mas seu espírito. Competência técnica, aliada à capacidade ética, capazes de descobrir a saúde do corpo como a maior riqueza da saúde do espírito do homem.



3. Direitos e deveres do Médico: expressões ético-profissionais em sua arte clínica.


O Código de ética do Médico registra algumas expressões ético-profissionais, de grande valia para a prática da ética do cuidado com a saúde integral do homem. Assim, por exemplo, destacamos aqui alguns tópicos de seus artigos entre outros:

I - O presente Código contém as normas éticas que devem ser seguidas pelos médicos no exercício da profissão, independentemente da função ou cargo que ocupem.

Art. 1° - A Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser humano e da coletividade e deve ser exercida sem discriminação de qualquer natureza.

Art. 2° - O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.

Art. 4° - Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão.

Art. 10° - O trabalho do médico não pode ser explorado por terceiros com objetivos de lucro, finalidade política ou religiosa.

Art. 13° - O médico deve denunciar às autoridades competentes quaisquer formas de poluição ou deterioração do meio ambiente, prejudiciais à saúde e à vida.

Art. 23 - Recusar-se a exercer sua profissão em instituição pública ou privada onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar o paciente.

Art. 37 - Deixar de comparecer a plantão em horário preestabelecido ou abandoná-lo sem a presença de substituto, salvo por motivo de força maior.

Art. 54 - Fornecer meio, instrumento, substância, conhecimentos ou participar, de qualquer maneira, na execução de pena de morte.

Art. 75 - Participar direta ou indiretamente da comercialização de órgãos ou tecidos humanos.

Esses artigos citados revelam a dimensão axiológica do referido Código de Ética do Médico. Para apreender seu conteúdo ético, percebê-lo inserido nos princípios da Bioética (o da autonomia, o da beneficência e o da Justiça), princípios esses fundamentais, jusfilosóficos dos deveres e dos direitos do Médico, pensamos que toda lei deve primar pela justiça (PEGORARO, 1995), isto é, deve prescrever o que está de acordo com a natureza e a dignidade do ser humano (ANDRADE FILHO, 2000) . Os valores éticos respondem as necessidades de sobrevivência e de harmonia do grupo. O homem desenvolve sua vida, não isoladamente, mas dentro de uma comunidade. Esta deve ser mantida e preservada para o bem do próprio indivíduo. Esta relação de sobrevivência e bom andamento do grupo com os interesses do indivíduo determina uma grande classe de valores: os éticos ou morais; os deveres, os direitos e o bem, isto é, valores que obrigam, valores que atraem e valores que autorizam. Dentro da categoria “ética profissional” podemos colocar várias atitudes valoradas, como a honra, a bondade, a fidelidade, a benevolência, a justiça etc.

Assim, para a atividade do médico, discute-se ser necessário que o profissional esteja imbuído de certos princípios ou valores do ser humano (Camargo, 1999: 31), para vivenciá-los nas suas atividades de trabalho. De um lado, a exigência ética da deontologia (do grego “deontes= a dever e “logos”= tratado) . É a Ciência dos deveres específicos que o orientam no campo profissional; de outro, exige a diceologia (do grego, “diceo”= direitos, e “logos”= tratado), isto é, o estudo dos direitos que esse profissional ou qualquer outro tem ao exercer suas atividades. À luz da Jusfilosofia, esses direitos constituem-se expressões éticas no exercício legal do médico. É a ética da responsabilidade de sua profissão. Aqui, o médico se experimenta enquanto age sobre os outros e em se mesmo. Ele se compreende como “responsável” que assume o seu ser e toma nas mãos o seu destino.



4. Tópicos para um diálogo entre médico e filósofo.


“Esse mundo da informática e da comunicação está criando um ambiente mental, afetivo e comportamental bem diferente que as gerações passadas: estreitando relacionamento entre pessoas, povos e culturas, fontes de esperanças para a humanidade. Afetam, sobretudo, a vida do cidadão – a educação em todos os níveis: massificação de uma cultura superficial, violenta, sem ética e imposta pela ‘mídia’, um novo tempo de perversidade –, a do desrespeito à vida e aos direitos humanos”. (Francisco Andrade)

“Pode haver Medicina – e tanto já houve e tanto ainda há – sem o concurso da ciência, mas dificilmente podemos imaginar uma Medicina que prescindisse dos conceitos inerentes à problemática humana, conceitos esses pertencentes prioritariamente, ao campo filosófico.” (Londres, l997: 111) .

“A Medicina relaciona estudos científicos a respeito do homem com a escala de valores humanos, unindo assim, através de tensões e resoluções, os terrenos do concreto e do abstrato. Uma Medicina que não leve em conta essa escala de valores pode se tornar contrária ao interesse daqueles que dela se servem” (id. ib.: 112) .

“A impregnação da Medicina pela atitude científica protegeu-a das especulações teóricas estéreis, mas a afastou de considerações teóricas e filosóficas que pudessem alinhavar os seus novos conhecimentos e orientar as resoluções de suas novas problemáticas” (id. ib. 113) .

A Filosofia da Medicina: é o exame crítico, através de uma visão filosófica, de uma epistemologia das ciências médicas, do significado da Medicina como uma prática clínica, analisando seus fundamentos, suas conceituações, suas ideologias e as bases filosóficas de sua ética´id. ib. 116) .

“O sofrimento é intolerável quando ninguém cuida”.

Dame Cicly Saunders

Bibliografia

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. ANDRADE FILHO, Francisco Antônio de. “Epistemologia Crítica: novas teorias do conhecimento na era da informática”. Disponível em: . Acesso em março de 2003. _____________. “Para Conhecer a Bioética: um novo paradigma da relação entre ciência e tecnologia”, (idem, ibidem, 1999) ; ___________. “Relato de uma experiência de estudos e pesquisas em bioética”, (idem, ibidem, 1998) .
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* Francisco Antônio de Andrade Filho. Ph.D. em Lógica e Filosofia da Ciência, IFCH/UNICAMP, São Paulo. Professor Titular aposentado da Universidade Federal de Alagoas. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Bioética.
Comunicação apresentada na Universidade Federal de Pernambuco, na Pós-Graduação/Mestrado em Pediatria do Centro de Ciências da Saúde, no dia 11 de março de 2003.